Enterro de Rilza Valentim atrai 20 mil pessoas nas ruas da cidade

A morte inesperada da prefeita de São Francisco do Conde, Rilza Valentim, na última quinta (24 de julho), ganhou repercussão não apenas em cenário nacional – já que na manhã seguinte ao seu falecimento, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou uma nota, avaliando o ocorrido como uma perda para a cidade, para a Bahia e para o Partido dos Trabalhadores. “Chamava atenção sua vitalidade, alegria e compromisso com o povo”, pontuou, tendo em mente sua última visita ao município, em maio deste ano, na inauguração do campus da Unilab [Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira].

Estiveram presentes no velório (realizado na Câmara de Vereadores no dia 25), políticos de todo estado, com destaque para o governador Jaques Wagner, vice-governador Otto Alencar, o senador Walter Pinheiro, o ex-secretário de Saúde do Estado, Jorge Solla, o prefeito de Lauro de Freitas, Márcio Paiva, e representantes de Camaçari, como o ex-prefeito Luiz Caetano e a deputada estadual Luiza Maia. O cortejo fúnebre teve início por volta das 16h e foi acompanhado por cerca de 20 mil pessoas, que percorreram as ruas da cidade entoando músicas saudosistas como: “E eu gostava tanto de você”, de Tim Maia. Quem não se juntou à multidão que lotou todo o trajeto rumo ao cemitério municipal (e durou cerca de duas horas), apinhou-se nas janelas e varandas para dar seu último adeus à prefeita, que morreu aos 52 anos em decorrência da anemia falciforme, doença hereditária e degenerativa que acomete especialmente a população negra. O enterro aconteceu por volta das 18h, sob o som e luzes de fogos de artifício.

Enlutada e perplexa com a morte repentina da prefeita, a emoção resplandecia nas faces dos moradores da cidade e de outras regiões que se deslocaram para prestar sua última homenagem. André Amaral, assessor de turismo da prefeitura de São Francisco do Conde, considera Rilza
a maior prefeita que a cidade de São Francisco do Conde já teve. “Perdemos exemplo de administração e gestão. A prefeita transformou a cidade. Hoje temos um município que é um canteiro de obras pelos seus quatro cantos. É o legado de Rilza, em todas as áreas, como saúde, educação, moradia e turismo. É um exemplo de mulher negra, pobre e batalhadora”, resume André.

Homônima à gestora, a moradora de Santo Estevão, Rilza Ingrace de Jesus Freitas, disse que o dia amanheceu triste no distrito. “Não tinha ninguém do lado de fora. Está difícil de assimilar, fomos pegos de surpresa, ninguém esperava”, lamenta-se a auxiliar de serviços de 63 anos.

As crianças Rauandercio de Jesus (dez anos), Aislean Gabriel dos Santos (nove) e Fredson Breno Assis da Silva (também nove anos) carregavam flores, à espera do início do cortejo, e apontaram a renovação dos móveis de suas escolas e o emprego dos pais como heranças da gestora.

“Não tenho palavras para descrever a importância dela. Foi uma perda irreparável, não sei quando a gente vai digerir. Pessoas que moram nos bairros, por exemplo, viviam na lama, ela calçou, colocou asfalto. Me senti realizada com essa gestão. Não poderia morrer sem ver uma universidade na cidade e agora temos”, constata a aposentada Cecé Agnésia, moradora e nascida em São Francisco do Conde, fazendo menção à inauguração da Unilab no município, em maio deste ano.

Estudantes africanos de Guiné e Cabo Verde também foram prestar sua última homenagem, representando a Unilab. “Para mim e meus colegas, significou a perda de uma mulher batalhadora. Desde que chegamos, ela nos acolheu até que o governo federal liberasse a nossa bolsa, nos concedendo alimentação e hospedagem nos primeiros meses no Brasil”, comenta o guinense Bernardo Alexandre Intipe, 21 anos, estudante de letras.

Por Luana Almeida