População pede Paz: Cresce índice de violência em Camaçari

A matéria a seguir você encontra na nova edição da revista Nossa Metrópole, edição de novembro.

POR FERNANDA MELO

-Publicidade-
-Publicidade-

Parece que foi ontem, quando sentávamos à porta de casa, ou até mesmo saíamos sem nos preocupar com a hora de voltar. Nessa época, eram raros os casos de parentes, amigos e vizinhos vítimas da violência nas ruas. Essa Camaçari, outrora pacata, não existe mais. O quadro mudou radicalmente. O município se desenvolveu, o que influenciou no crescimento da violência, fator que requer mais investimentos em segurança pública.

Os mais de 280 mil habitantes da cidade do Polo estão em alerta. Só nos últimos meses, por exemplo, agosto, setembro e outubro, houve um índice assustador no número de homicídios. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP/BA), o município registrou 56 casos. A polícia acredita que 90% dos assassinatos estejam relacionados às drogas.

“Novas indústrias tem se instalado aqui, atraindo também os olhares dos criminosos. Com isso, crescem o tráfico de drogas, assaltos e homicídios”, diz a delegada titular do setor de Homicídios da 18ª Delegacia Territorial de Camaçari, Dra. Maria Tereza Santos Silva. De acordo com ela, os traficantes executam os usuários não só por dívida, mas para impor respeito aos demais.
ÚLTIMOS CASOS

Os crimes ocorridos nos últimos meses repercutiram e deixaram a população assustada. Em 30 de setembro, o comerciante John Kennedy Carvalho Oliveira, 49 anos, foi executado dentro do próprio estabelecimento, uma distribuidora de bebidas, localizada no bairro da Gleba C. As investigações apontam que a motivação teria sido ciúmes. “O mandante do crime acreditava que a vítima estava mantendo um relacionamento afetivo com a ex-esposa, fato negado pelos familiares de Kennedy”, disse Dra. Maria Tereza, durante entrevista. O autor dos disparos foi detido minutos após e o mandante continua foragido.

Poucos dias depois, 4 de outubro, no mesmo bairro, o coordenador da Força-Tarefa de Camaçari, José Carlos Santos de Souza, 55 anos, foi assassinado dentro de um açougue. A polícia afirma que ele foi vítima de latrocínio, roubo seguido de morte. “O bandido se dirigiu ao caixa do estabelecimento, mas Souza, ao perceber a ação, tentou sacar uma arma. Os dois entraram em luta corporal. Então, o comparsa do bandido, que estava do lado externo do açougue, efetuou os disparos”, explica a delegada.

Em setembro, foi inaugurada uma Base Comunitária de Segurança no Phoc II. A atuação da base abrange os Phocs, Gleba C e E. Apesar da unidade, o clima de insegurança continua. “A Gleba C era um bairro tranquilo, de boa vizinhança. Hoje, temos medo de sair na rua até durante o dia. Queria ver a polícia fazendo rondas na região”, diz uma moradora que preferiu não se identificar.
Os moradores da região podem ajudar o trabalho da polícia através do telefone da Base Comunitária de Segurança: 71 3622-0678

una-pistola-glock-y-municion_1920x1200_1012
Os casos não param por aí. No dia 27 de outubro, um mototaxista foi executado, em via pública, em frente ao condomínio residencial Verde Ville. Segundo a polícia, Diego Henrique Custódio de Jesus, 23 anos, morreu ao tentar proteger o pai, José Henrique Santos, que com outros mototaxistas, tentou defender um carroceiro. Diego se atirou na frente do pai, que seria alvejado por conta de uma discussão com o motorista de um carro que colidiu com a carroça. A sequência de acontecimentos terminou com a morte do jovem.

SEM RECEIO DE MOSTRAR A CARA

A ousadia é tamanha que todos os crimes mencionados foram cometidos em plena luz do dia. Os homicidas já não se preocupam em mostrar a face, isso por conta da impunidade. “As testemunhas ocultam os delitos por medo e os criminosos acreditam veementemente que vão continuar no anonimato e, assim, permanecem matando”, alerta a titular da Delegacia de Homicídios de Camaçari.

Disk-Denúncia: 3235-0000
Setor de Homicídios: 3622-7874

REDUZIR A MAIORIDADE PENAL SERIA SOLUÇÃO?
Para Dra. Maria Tereza, não! Apesar de muitos crimes serem executados por menores de idade, por encontrarem brecha no Código Penal Brasileiro, a delegada discorda que a maioridade esteja relacionada aos altos índices da criminalidade. Ela acredita que, caso seja reduzida para os 16 anos, os chefões vão continuar recrutando adolescentes cada vez mais jovens, com 14, 12 ou até com menos idade. “O nosso Código Penal não está defasado, nem ultrapassado. Não é esse tipo de mudança que vai diminuir a criminalidade. Precisamos aumentar o quadro de policiais, delegados, promotores e juízes. O efetivo não consegue atender a demanda”. Segundo Dra. Maria Tereza, há alguns meses, ela remetia à justiça uma média de 12 inquéritos por mês. Atualmente, esse índice caiu pela metade. Isso se dá por causa do crescente número de crimes. “Não conseguimos dar conta de todos os casos”, completa.

maioridade-penal

QUANTO VALE UMA VIDA?

A violência tornou-se rotina na vida do cidadão. Isso em todo o Brasil. Uma discussão no trânsito ou em uma partida de futebol no fim de semana pode ser estopim para uma pessoa tirar a vida de outra. É essa presença constante da violência no dia a dia que estimula e incentiva a banalização da vida.

Segundo a psicóloga Suzana Dayse Nazareth, da Secretaria da Mulher de Camaçari, são vários os motivos que levam uma pessoa a agredir outra ou até a praticar o homicídio. “O estresse, perda dos valores, falta de tolerância, sentimento de posse e de poder, falta de amor ao próximo, de gentileza, de respeito às diferenças, são alguns indícios que levam algumas pessoas a perderem o controle emocional, concretizando, assim, o ato violento”, disse.

Ainda de acordo com ela, o que acontece, na maioria das vezes, é que o agressor acha que tem razão. “As pessoas buscam sempre motivos para justificar a violência, não reconhecem que tem alguma parcela de responsabilidade no ocorrido. É comum atribuir ao outro o erro, se eximindo da culpa de um fato”, completa.