Cartunistas mortos em atentado eram conhecidos por postura ‘combativa’ e ‘corajosa’

Entre as 12 vítimas do atentado na revista Charlie Hedbo estavam o editor-chefe da publicação, Stephane Charbonnier, o ‘Charb’; os cartunistas Georges Wolinski, Jean Cabut- o ‘Cabu’ e Bernard Verlhac; e o escritor e economista Bernard Maris, colunista da publicação. De origem tunisiana, Wolinski, 80, era conhecido por seu trabalho de forte teor erótico e político e influenciou cartunistas brasileiros como Ziraldo, Jaguar e Henfil.

O desenhista começou a publicar suas tiras nos anos 1960. Era um “combativo”, como afirmou Ziraldo, de quem era amigo, em entrevista ao G1: “Era aquele francês bem irreverente e bravo. O Charlie Hebdo fazia um humor muito agressivo. Acho que eles tinham muita coragem”. Wolinski é considerado um dos símbolos das manifestações que aconteceram em 1968 no país, por reformas na educação, que logo tiveram adesão de trabalhadores e resultaram em uma greve geral.

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Um dos personagens mais marcantes de Wolinski foi a polêmica Paulette, criada também no início dos anos 1970 junto com o artista Georges Pichard (1920-2003). Stephane Charbonnier, 47, era editor-chefe e cartunista da revista Charlie Hebdo. Em entrevista ao jornal francês Le Monde, há dois anos, quando questionado pelas ameaças que a revista sofria, ele disse que nunca abaixaria sua caneta.

“Eu não tenho mulher ou filhos, nem um cachorro, mas não vou me esconder”. Charb, como era conhecido, afirmou também que preferia “morrer de pé do que viver de joelhos”. O cartunista trabalhou nas redações do L’Echo des Savanes, Télérama, Fluide Glacial e L’Humanité. Ainda de acordo com o Le Monde, o editor contava com proteção policial após o ataque que a Charlie Hebdo sofreu em 2011, quando publicou caricaturas sobre Maomé.

Mais conhecido como Cabu, o cartunista Jean Cabut, 76, colaborava com a revista desde sua criação, em 1970. Cabu era um cartunista veterano de vários jornais franceses. Já o cartunista francês Bernard Verlhac, 57, conhecido como Tignous, colaborava com outros meios de comunicação como o semanário Marianne e o Fluide Glacial, além das charges publicadas na Charlie Hebdo.

Já o jornalista, escritor e economista Bernard Maris, 68, era colunista da publicação e foi um dos fundadores da revista, onde já tinha ocupado o cargo de editor-chefe.

Jornal francês já havia sofrido outros ataques
Conhecido pelas sátiras envolvendo política, religião e temas polêmicos, o jornal Charlie Hebdo foi fundado em 1970, em Paris, quando substituiu a Hara Kiri, um semanário anticlerical que denunciava a ordem burguesa e que teve sua distribuição proibida pelo Ministério do Interior da França, no mesmo ano, por considerar ofensiva uma manchete sobre o então presidente francês Charles de Gaulle, que acabara de morrer.

A redação optou então por uma nova fórmula editorial, que combinava quadrinhos com o humor ácido, e mudou o nome para Charlie Hebdo, em referência a Charlie Brown, das famosas tirinhas americanas de Charles Schulz. A publicação, com tiragem semanal de 50 mil exemplares, se autodenominava como “um jornal irresponsável”.

Em uma entrevista ao site Deutsche Welle, um dos editores da publicação, Gérard Biard, garantiu que o trabalho do jornal envolve a defesa do direito da liberdade de expressão. “Eu rejeito o termo ‘provocação’. Não se trata de jeito nenhum de provocação, se trata de fazer nosso trabalho de jornalistas, de comentaristas da atualidade”.

Em fevereiro de 2006, a Charlie Hebdo reproduziu as charges de Maomé publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten e esgotou os 140 mil exemplares que foram colocados na rua e mais uma tiragem extra de 400 mil. Em novembro de 2011, a revista foi alvo de uma bomba incendiária depois de nomear Maomé editor-chefe em uma de suas edições.

Um ano depois, o semanário voltou a publicar sátiras sobre o profeta islâmico. Em resposta ao ataque, o Ministério do Interior aumentou o nível de alerta do Plano Vigipirata, que estabelece as diretrizes em caso de ameaça terrorista na França. Em 2013, o jornal sofreu um ataque de hackers em sua página na internet e ficou horas fora do ar. O motivo também teria sido a publicação de uma história sobre Maomé.

Ataque em redação de jornal
Homens mascarados, armados com fuzis AK-47 e gritando “Allahu akbar!” (Deus é Grande!), invadiram a redação do jornal satírico Charlie Hebdo ontem, matando 12 pessoas antes de fugir. Foi o pior ataque terrorista na França em pelo menos duas décadas. Outras 11 pessoas ficaram feridas. Na fuga, os atiradores afirmaram agir para “vingar o profeta Maomé”, segundo imagens de vídeo e testemunhas.

Dez jornalistas e dois policiais foram mortos. O caricaturista Jean Cabut, conhecido pelos leitores pelo nome de Cabu, e Stéphane Charbonnier, editor do jornal, que usava o pseudônimo Charb, estão entre os mortos. Um dos policiais mortos havia sido designado para atuar como guarda-costas de Charb.

Corinne Rey, cartunista que afirmou ter sido forçada a permitir a entrada dos homens no prédio do jornal, disse que eles falavam francês fluentemente e que afirmaram ser da Al-Qaeda. Em entrevista ao jornal l’Humanite, ela declarou que a ação deve ter durado uns cinco minutos.

Tiros
Os homens subiram ao segundo andar do prédio e começaram a realizar disparos de forma indiscriminada na redação, informou Christophe DeLoire, integrante do grupo Repórteres Sem Fronteiras. “Este é o dia mais negro da história da imprensa francesa”, afirmou ele.

Um dos funcionários conseguiu telefonar para a uma amiga, Inna Shevchenko, ativista do grupo Femen, pedindo que chamasse a polícia, segundo ela informou, ainda chocada com os acontecimentos.

Após a chacina, os terroristas fugiram e se defrontaram com policiais que já atendiam ao chamado. Um vídeo da agência Premières Lignes mostra dois homens que descem de um automóvel Citroën C3 e disparam contra os agentes de segurança. Um policial, ferido e caído, pede pela vida. No entanto, o atirador se aproxima, executa o policial e corre para o veículo – onde estaria o terceiro envolvido –, desaparecendo na periferia nordeste de Paris.

“Estávamos trabalhando quando ouvimos disparos. Foi uma sequência, muitos tiros em rajadas. Então, vimos um carro partindo em alta velocidade, que não consegui identificar”, disse o comerciante Eric Meguira, 50 anos. “Dois policiais chegaram e trocaram tiros. Vimos o tiroteio e os feridos sendo levados pelos bombeiros”.

As investigações da polícia levaram a dois irmãos na região de Paris, 32 e 34 anos, e a outro homem, 18 anos, de Reims, no noroeste da França. Na noite de ontem, o Ministério do Interior identificou os três autores do atentado como os irmãos Said e Chérif Kouachi, ex-membros de uma rede terrorista, e Hamyd Mourad, um morador de rua recrutado pelos dois.

Ameaças
O jornal recebe muitas ameaças por causa das caricaturas do profeta Maomé e outras charges controversas que publica. Seu escritório foi alvo de bombas incendiárias em 2011, após uma edição na qual Maomé estava na capa.

Desde então, o semanário havia mudado de endereço e estava sob escolta da polícia. Cerca de um ano mais tarde, o semanário publicou mais caricaturas do profeta, atraindo críticas de muçulmanos de todo o mundo.

O atentado é um dos piores em Paris desde 1995, quando uma bomba explodiu na estação de metrô Saint-Michel, matando oito pessoas. O presidente francês, François Hollande, afirmou que vários ataques terroristas foram evitados nas últimas semanas.

“Nós sabíamos que estávamos sob ameaça, como outros países do mundo”, disse. “Estamos sob ameaça porque somos um país de liberdade e por que somos um país de liberdade, vamos afastar as ameaças e punir os agressores”.

Fonte: Correio 24 Horas