Mulheres adiam gravidez após aumento de casos de microcefalia

Elas querem. Elas podem. Mas será que devem? Esse é o dilema que mulheres estão enfrentando diante da relação entre a epidemia de zika vírus e o aumento de casos de microcefalia em bebês. Ontem, a Secretaria Estadual da Saúde (Sesab) divulgou boletim com 150 notificações da má-formação em todo o estado.

Diante do quadro, futuras mamães estão adiando o sonho da maternidade por medo de se tornar uma estatística e seguindo conselhos médicos. “Sempre sonhei em ser mãe. Planejo há um ano. Ter que adiar é frustrante”, diz a bióloga Indira Damasceno, 32 anos.

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Casada há três anos com o engenheiro civil Marcelo Oliveira, 31, a baiana tentava engravidar do primeiro filho quando os primeiros casos de microcefalia relacionados ao zika vírus começaram a ser notificados. Indira, que teve sintomas da zika em setembro, procurou a ginecologista buscando orientação.

“Tive dores no corpo, cansaço, febre. Fiz o exame em novembro e a previsão é que o resultado saia em janeiro. A médica achou melhor esperar”, relata. Ela conta que o conselho médico foi o mesmo para outras mulheres.

É provável que o exame feito por Indira dê negativo. É que a eficácia só é garantida caso o exame RNA PCR (que identifica a zika) seja feito nos primeiros cinco dias de sintomas. Usando o sequenciamento genético do vírus, o teste consegue diferenciar se a paciente teve zika, dengue ou chikungunya — todas transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti.

Com segurança
Mesmo não tendo os sintomas, a publicitária Camila Dantas, 30, também optou pela cautela. Casada há cinco anos com o engenheiro elétrico Dan Marambaia, 34, e mãe de Sofia, de 4 anos, ela planejava a segunda gravidez para este mês.

“Tinha feito todos os exames. Mas resolvemos adiar”, diz Camila. O plano está em pausa pelos próximos três meses, no máximo. “Mais do que isso eu não vou aguardar. Minha filha está querendo muito um irmãozinho. Meu marido também está ansioso. Já estou usando repelente”.

Preocupações
O que também preocupa as futuras mamães é a falta de informações sobre os outros riscos que o zika vírus oferece ao feto durante a gravidez, e as consequências que o bebê pode sofrer além da má-formação.

“Houve alguns casos de má-formação dos pés associados ao vírus em Pernambuco, mas nada assim na Bahia”, diz a professora de neonatologia da Ufba Lícia Moreira. “O que está se vendo no ultrassom, além da microcefalia, são mais três lesões no cérebro: calcificações, dilatações e destruições no cerebelo (responsável pelo equilíbrio)”, acrescenta o obstetra especialista em Medicina Fetal Manoel Sarno.

O zika vírus apresenta um risco maior para gestantes durante os três primeiros meses de gravidez. Também há possibilidade de transmissão através da relação sexual. O caso se torna mais alarmante quando a literatura científica aponta que mais de 80% das pessoas infectadas não desenvolvem os sintomas.

Sem tempo
Enquanto Indira e Camila decidiram esperar, Roberta Araújo, 37, manteve o sonho. A mãe de Matheus, de 3 anos, teve zika em junho e corre contra o tempo. “A médica pediu para esperar até janeiro. Mas decidi voltar a tentar”, diz a representante de vendas.

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Roberta e o marido, Maurício Araújo, decidiram arriscar. “Estou com medo, rezando muito. Cada gravidez é uma surpresa, com zika, sem zika. É arriscar e ter fé”, conta, mas reconhece que precisa ser muito mais cuidadosa pra evitar um novo contato com o vírus.

Katharine Vilela, 33, se viu na mesma encruzilhada. Casada há dois anos com o advogado Aloísio Gonçalves, 38, a terapeuta ocupacional estava tentando engravidar pela primeira vez desde agosto. “Decidimos que não vamos adiar”, conta Katharine.

A decisão delas é defendida pelo obstetra Manoel Sarno. “Acredito que a decisão de esperar ou não deve partir do casal. Se decidir que é agora, a gente recomenda que tome todos os cuidados para evitar a contaminação da mãe com o zika vírus, e que faça um pré-natal adequado”, alerta.

Casos confirmados aumentam 230% no estado
A Bahia registra 150 notificações de microcefalia — em 86 foi confirmada a doença e constatado que o bebê possui crânio igual ou menor a 32 centímetros.

Os dados, de janeiro até a última quinta-feira, foram divulgados ontem pela Secretaria Estadual da Saúde (Sesab). As cidades que concentram o maior número dos casos confirmados são Salvador (53), Lauro de Freitas (4) e Camaçari (3), na Região Metropolitana.

Houve um crescimento de 230% desde o último boletim, divulgado na sexta-feira, que apontava 26 confirmações. Em novembro, eram 13 casos confirmados pelo estado. Está mantido o número de óbitos: seis bebês morreram em decorrência da doença em Salvador, Itapetinga, Olindina, Tanhaçu, Camaçari e Itabuna (uma morte em cada cidade).

O aumento das ocorrências está relacionado, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ao zika vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue e da febre chikungunya. Dos 150 registros, não há informações em 64 sobre o perímetro encefálico dos bebês.

A Sesab informou que os casos suspeitos da doença devem ser notificados pelas equipes de saúde dos estabelecimentos de saúde no prazo de até 24 horas. Os números seguem o novo critério adotado pelo Ministério da Saúde no último dia 4, em consonância com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

A pasta passou a considerar que crianças com o contorno da cabeça (perímetro cefálico) igual ou inferior a 32 cm podem ser consideradas possíveis portadores de microcefalia. Anteriormente, o critério para investigação era de 33 cm.

Hoje, o governador Rui Costa se reúne em Brasília com a presidente Dilma Rousseff para discutir ações de enfrentamento à epidemia de zika vírus. O encontro acontece no Palácio do Planalto e terá a participação de governadores de todo o país.

Soldados do Exército iniciam caça ao Aedes aegypti em Pernambuco
Duzentos soldados do Exército iniciaram ontem o combate ao Aedes aegypti em Recife (PE). Pela segunda vez este ano, os militares acompanham os agentes de endemias em visitas domiciliares.

Nesta primeira semana, o Exército atuará em oito bairros, a maioria deles na periferia, considerados críticos pela prefeitura. Foi feita uma varredura no Alto do Mandu, morro da Zona Norte da capital pernambucana, atrás de focos do mosquito.

O estado enfrenta um surto de microcefalia, com 646 dos 1.248 casos suspeitos no país. O governo federal já confirmou a ligação da má-formação em bebês e o vírus zika, transmitido pelo mosquito.

A participação das Forças Armadas no combate ao mosquito faz parte do Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia, lançado no último sábado em Recife pela presidente Dilma Rousseff.

Fonte: Correio 24 Horas