Artista promove encontro entre maquiagem, grafite e fotos

Quinze grafites espalhados pelas ruas de Salvador ganharam materialidade corporal através da maquiagem. Depois, foram gravados em fotos criando um jogo de ilusões. A melhor parte é o retorno de todos esses trabalhos, sob o formato de painéis gigantes, ao lugar onde um dia já estiveram.

Misturando o aspecto efêmero da maquiagem e da arte de rua a uma certa perenidade das fotografias, a artista visual Marie Thauront criou o projeto Mur(r)os. Nele, a francesa, que vive em Salvador desde a década de 1980, investe no diálogo artístico: além de ter executado as maquiagens corporais baseadas nos grafites, ela também assinou as imagens.

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As fotos em grandes proporções dos trabalhos escolhidos para virar body art são coladas com o auxílio da técnica lambe-lambe. Ela realiza esse processo em diferentes pontos da capital, como os bairros Barbalho (uma das paredes laterais do Instituto Central de Educação Isaías Alves) e Rio Vermelho (na Rua da Paciência), além de grandes avenidas, como Manoel Dias, Ogunjá, Contorno, Suburbana e Bonocô.

Marie Thauront conta que a ideia para esse exercício artístico surgiu enquanto transitava de ônibus pela cidade e era convocada pelos grafites.
“A maioria deles já foi apagada. Só que isso é arte de rua. É efêmero. A partir do momento que colocamos nas avenidas, não sabemos qual será o destino dos nossos filhos”.

Mur(r)os foi contemplado pelo Edital Setoriais de Artes Visuais (30/2012) da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) e está em produção desde 2010. Marie explica que a intenção é provocar uma aflição naqueles que entrarem em contato com as obras.

“Além disso, também quero despertar reflexões a respeito dos processos artísticos urbanos. Mur(r)os fala sobre a arte de rua que muita gente passa na frente e não vê. Também não sei se vão ver as minhas fotos. Na verdade, a opção pelo tamanho grande tem a ver com chamar atenção”.

Por conta da sua larga experiência com maquiagem, a identidade é um assunto que interessa bastante Marie. “Me pergunto: por que o grafiteiro representa o ser humano assim? Parecem personagens de histórias em quadrinhos fora da realidade. Só que estou colocando eles no contexto”.

Ao fim do processo de colagem, a maquiadora vai disponibilizar um mapa com os pontos onde estão fixadas as fotografias gigantes. O conteúdo mapeado poderá ser acessado no blog do projeto (murrosblog.wordpress.com).

Troca artística
O grafite criado pelo artista visual Eder Muniz em 2011, no bairro Dois de Julho, foi um dos escolhidos para ganhar vida no corpo de alguém. Ele ressalta a importância de influenciar a arte de uma profissional como Marie Thauront. “Acho que as trocas artísticas são naturais. Acontece o mesmo comigo quando vou ver um espetáculo de dança ou peça de teatro, por exemplo: também recebo influências”, diz.

Ele lembra que o grafite que serviu de inspiração para a maquiagem (foto ao lado) tinha como objetivo questionar a urbanização desordenada. “O grafite tem a característica de influenciar e ser influenciado. Ele usa de referências da moda, do design e das escolas de arte antiga, por exemplo, e se camufla”, resume.

Fonte: A Tarde