Governo Dilma enfrenta o maior protesto desde o ano passado

Pelo menos 3,3 milhões de brasileiros foram às ruas ontem protestar, em pelo menos 249 cidades, de acordo com números das polícias militares das 27 unidades da Federação. O número sobe para 6,6 milhões, levando-se em conta as estimativas dos organizadores dos protestos.

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Certo mesmo foram os três motivos que tiraram as pessoas de casa no domingo: o impeachment da presidente da República, Dilma Rousseff, a prisão do ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, e o apoio à Operação Lava Jato, com um destaque para o juiz Sérgio Moro, responsável pelos julgamentos em primeira instância, e que foi praticamente alçado à categoria de herói nacional ontem.

A quantidade de pessoas nas ruas varia ainda mais quando se leva em conta os números do Instituto Datafolha, cuja pesquisa se ateve ao público na Avenida Paulista e arredores, em São Paulo. Foram 500 mil pessoas, número inferior ao 1,4 milhão estimado pela Polícia Militar, ou aos 2,5 milhões apontados pelos organizadores. Ainda assim, trata-se do maior ato público já realizado na cidade, segundo o Datafolha.

O público que esteve ontem na Avenida Paulista superou em 100 mil o número de 400 mil pessoas que estiveram no Vale do Anhangabaú apoiando as Diretas Já, em 1984. Além de superar por muito a Marcha para Jesus, em 2012, que reuniu com 335 mil pessoas, e a Parada Gay, também em 2012, com 270 mil – todos os números de acordo com contagens do Datafolha.

O protesto no Rio de Janeiro se estendeu por mais de oito quarteirões na orla da praia de Copacabana. Assim como em manifestações realizadas no ano passado, o governo do Rio (PMDB) não divulgou estimativa do público presente. Os organizadores estimaram a presença de 1 milhão de pessoas. Carros de som espalhados pelo trajeto criticaram a presidente Dilma e o ex-presidente Lula.

Em Brasília, os protestos reuniram 100 mil manifestantes, segundo a Polícia Militar. Os organizadores falam em 200 mil. Em Belo Horizonte, foram às ruas 30 mil, segundo a PM, ou 40 mil, segundo os organizadores.

As manifestações foram noticiadas com destaque pela imprensa internacional. Os sites de notícias salientaram as dimensões dos protestos e a fragilidade em que se encontra o governo brasileiro. De acordo com o jornal britânico The Guardian, um dos mais importantes do mundo, os atos aumentam as dúvidas sobre a capacidade da petista completar o mandato. Nos Estados Unidos, o Washington Post destacou que o número de manifestantes deste domingo superou o das Diretas Já. O jornal argentino Clarín observou que foram “as primeiras manifestações apoiadas por partidos da oposição de forma explícita”.

Moro homenageado
O juiz federal Sérgio Moro foi tratado mais uma vez como “herói nacional” nas manifestações em diversas capitais brasileiras e até mesmo fora do País. À tarde, Moro divulgou nota agradecendo.

“Fiquei tocado pelo apoio às investigações da assim denominada Operação Lavajato. Apesar das referências ao meu nome, tributo a bondade do povo brasileiro ao êxito até o momento de um trabalho institucional robusto que envolve a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e todas as instâncias do Poder Judiciário”, afirmou Moro em nota.

Máscaras do juiz, cartazes, camisetas, faixas e até pessoas fantasiadas de Moro pontuaram as manifestações pró-impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na nota, Sérgio Moro disse considerar “importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas” e que “não há futuro com a corrupção sistêmica que destrói nossa democracia, nosso bem estar econômico e nossa dignidade”.

Resposta de Dilma
A Presidência da República divulgou uma nota de posicionamento sobre os atos de ontem na qual destaca o “caráter pacífico das manifestações” e a “maturidade” de “conviver com opiniões divergentes” no país. “A liberdade de manifestação é própria das democracias e por todos deve ser respeitada. O caráter pacífico das manifestações ocorridas neste domingo demonstra a maturidade de um país que sabe conviver com opiniões divergentes e sabe garantir o respeito às suas leis e às instituições”, diz o texto, assinado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

Dilma passou o domingo no Palácio da Alvorada, acompanhando pelo noticiário e por interlocutores as mobilizações. Ao longo da tarde, Dilma reuniu um grupo de ministros no Palácio do Alvorada para definir a resposta que o governo daria às manifestações.

Aécio e Alckmin vão a protesto e ficam satisfeitos
O governador Geraldo Alckmin e o senador Aécio Neves (MG), ambos do PSDB, participaram pela primeira vez das manifestações contra o governo Dilma ontem em São Paulo. Os dois foram recebidos entre vaias e aplausos pelos manifestantes.

Em nota, Aécio se disse “feliz em ter podido participar” de um dia que ficará “escrito na história do Brasil” e destacou a importância da “convergência entre as manifestações populares e os agentes políticos que querem mudança”.

“Temos que saber interpretar esse sentimento que colhemos hoje e buscar uma saída o mais rapidamente possível para essa crise, sempre com respeito à Constituição. (…) Mas o sentimento geral que se colhe em todas as regiões do Brasil é de que a solução deverá se dar sem a atual presidente no comando do país”, disse.

Em nota divulgada no início da noite de domingo, o diretório do PSDB em São Paulo disse que Alckmin e Aécio, “ficaram extremamente satisfeitos com a recepção da população”. “Eles foram convidados por movimentos sociais e entidades”, afirma a nota. O texto ainda diz que “nunca estiveram previstos discursos de qualquer um deles” e desmentiu que eles teriam desistido de falar por conta das vaias.

Manifestantes gritaram palavras de ordem contra o governador por causa do caso de desvio de dinheiro em contratos de fornecimento de merenda escolar em São Paulo e das citações ao senador mineiro em delações da Operação Lava Jato. Foram ouvidos gritos de “Fora”, “ladrão”, ”oportunista” e “o próximo é você”. Em determinados momentos, os dois políticos também receberam aplausos.

Grupos de petistas apoiam Lula e assam coxinhas
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu apoio de cerca de 400 manifestantes em frente ao prédio onde mora, em São Bernardo do Campo (Grande SP). Vestido de vermelho, ele acenou da sacada e saiu para cumprimentar o grupo, que levava cartazes com dizeres como “Chega de antipetismo” e “Lula, o melhor presidente do Brasil”. Membros da União da Juventude Socialista carregavam uma faixa com o escrito “#nãovaitergolpe”.

Manifestações a favor do governo federal também ocorreram em outras cidades, apesar do apelo de militantes para que os atos inicialmente marcados para ontem fossem adiados para evitar confrontos com os grupos pró-impeachment que protestam pelo país.

Em Porto Alegre, movimentos sociais se reuniram no parque Redenção para fazer um churrasco de coxinha, batizado de “coxinhaço”, como contraponto aos chamados “coxinhas”, que pedem a saída da presidente Dilma.

Foram assados mais de 100 kg de coxa de galinha — cada coxinha foi vendida por R$ 2, acompanhada de pão. A organização do evento estima a participação de mil pessoas. A PM gaúcha não divulgou números.

“Lutamos contra o golpe e pela democracia”, disse Cláudio Knierim, 54, do grupo tradicionalista Piquete Estrela Gaudéria, ligado ao PT.

Camisetas vermelhas com os dizeres “a jararaca está viva”, uma referência à declaração de Lula após sua condução coercitiva, no último dia 4 de março, eram uma das mais usadas.

Fonte: Correio