Camaçari pede socorro. Saúde , Educação e Segurança estão na UTI

Camaçari acostumou-se a inspirar orgulho nos seus residentes. Em toda a história do município, sempre houve alguma característica singular que o tornava convidativo e destacado. Isso ocorre desde antes da emancipação política, quando as águas terapêuticas atraíram as primeiras comunidades. Ser passagem de linha férrea, à época, também cooperou para que a cidade se tornasse sinônimo de um bom lugar para se viver. As belas praias paradisíacas que compõem os 42 quilômetros de orla referendaram a fama. Com a construção do Polo Industrial, na década de 70, a cidade entrou efetivamente nos trilhos do desenvolvimento. Todo esse panorama positivo – somado ao funcionamento dos serviços públicos essenciais variando entre regular e bom – conseguiu aglomerar motivos suficientes para manter elevada, por muito tempo, a autoestima dos cidadãos camaçarienses. Mas, infelizmente, o cenário atual tem provocado uma vertiginosa queda no nível de satisfação dos moradores da saudosa terra das oportunidades.
Indícios do descontentamento popular podem ser observados nas enormes filas que se formam nas primeiras horas da manhã na entrada do Centro de Integração e Apoio ao Trabalhador (Ciat) pelo universo crescente de desempregados, nas salas de espera dos postos de saúde que mal funcionam, nas unidades públicas de ensino onde os horários das aulas se transformam em longos e improdutivos intervalos, ou na 18ª Delegacia Territorial, para onde muitos recém-assaltados e agredidos vão diariamente queixar-se oficialmente apenas para formalizar seus prejuízos.
A série de greves e protestos que os camaçarienses testemunharam e realizaram este ano evidenciam a gravidade do descontentamento coletivo. Este levante popular é uma reação compreensível, visto que a situação é extremamente incômoda. É difícil ignorar os problemas quando a sensação, às vezes, é de estar cercado pelo caos. Talvez algum leitor mais otimista esteja, mentalmente, contra-argumentando, mas a verdade é que não há como não lamentar o fechamento de uma unidade de saúde e a ameaça de fechar outras, ou as chacinas seguidas de alardes de toque de recolher, ou o fato das escolas do município terem ficado 34 dias letivos seguidos com a oferta de aulas interrompida, sem contar as paralizações pontuais.
No final das contas, as manifestações também se estenderam às urnas e no dia 2 de outubro, ao exercerem o direito ao voto, mais de 60% dos eleitores optaram por uma mudança extrema na liderança do poder executivo municipal, contra os menos de 3% que apoiaram a proposta de plena continuidade. É fácil reconhecer que este quadro de percentuais também traduz a revolta que a deletéria situação atual provoca nos munícipes. Cansados de desculpas e promessas, eles cobram melhorias palatáveis. O próximo prefeito tem um desafio e tanto pela frente. A cidade que o atual governo recebeu do seu antecessor, bem como o estado de espírito dos seus habitantes, não são os mesmos.
Caos na Educação
A professora do ensino fundamental 1, Daionara Matos, atua há quase 10 anos em Camaçari e afirma categoricamente que a situação da educação pública no município nunca esteve tão caótica. Os problemas estão por toda parte. Um deles foi o não cumprimento de direitos adquiridos pela categoria, como a data base para ajuste salarial (janeiro), mais uma vez ignorada pelo governo municipal. Outro problema grave apontado pela servidora está relacionado à falta da manutenção básica das unidades de ensino. “Já afetados pelas perdas acumuladas e pelo fato das negociações não darem resultado, recebendo justificativas inaceitáveis no lugar dos nossos direitos, começamos o ano letivo em escolas que, sequer, tiveram a grama cortada”, lembra.
Atualmente, mesmo depois de uma greve que durou mais de dois meses com adesão total da categoria (de 18 de março a 05 de maio), o sentimento dos professores ainda é de tristeza e indignação. Os motivos: voltaram para as salas de aula sem as conquistas almejadas, sem o mínimo de material necessário para o trabalho e sem o respeito e a dignidade com as quais deveriam ser tratados. “Continuamos trabalhando sem material pedagógico. Como ainda não temos cadernetas, fazemos os relatórios dos alunos em material pessoal, para um dia, quem sabe, passar a limpo para a devida documentação definitiva”, lamenta a professora.

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O reflexo dos problemas enfrentados pelos professores atinge em cheio os estudantes que, na maioria das escolas, estão com grades incompletas e são prejudicados pelas intensas alterações no calendário escolar e, muitas vezes, contagiados pela desmotivação dos mestres. E como insatisfação não é um produto monopolizado pelos profissionais do ensino, os outros servidores públicos, frente às suas situações-problema, também decidiram cruzar os braços e exigir melhorias, o que comprometeu ainda mais os serviços oferecidos aos alunos nas escolas do município. Há cerca de oito meses, eles estão sem merenda, pois não há quem cozinhe; outros nem mesmo puderam marcar presença nas salas de aula porque o serviço de transporte escolar foi interrompido. Este é apenas um resumo de como está a educação em Camaçari, sem citar os vários desdobramentos destes problemas a longo prazo.
Saúde pede socorro

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A qualidade do serviço de saúde no município está tão baixa quanto o de educação, talvez até mais, considerando a importância do seu pleno funcionamento para o bem estar dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). A situação das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e das Unidades de Saúde da Família (USFs) da cidade é calamitosa. Equipamentos sucateados, macas e cadeiras corroídas por ferrugem, falta de medicamentos e materiais para curativos, banheiros interditados e paredes com infiltração são alguns dos problemas notados na maioria das unidades públicas de saúde. Tais problemas inviabilizam a execução de um bom trabalho por parte dos profissionais e, consequentemente, causam indignação nos cidadãos que procuram os postos. Mas estes não são, nem de longe, os maiores causadores de desgosto. A qualidade do atendimento está sendo intensamente afetada pelo descaso do poder público que, por falta de empenho ou de uma estratégia eficaz, não consegue colocar o serviço de saúde nos eixos. Além da ausência do investimento necessário em manutenção, também não está destinando a atenção e a verba necessária para os recursos humanos.
Tal situação levou a categoria médica a se mobilizar para chamar a atenção do governo municipal, exigir as melhorias necessárias e também para reclamar dos recorrentes atrasos no pagamento dos salários. No final de 2015 e início deste ano, por exemplo, houve um período de greve em que apenas uma UPA manteve as portas abertas. Mas as medidas adotadas para pressionar o governo não surtiram efeito. Em vez disso, houve demissão de líderes do movimento grevista, ação que foi interpretada pela categoria como perseguição e represália.

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Mesmo após o fim da greve, o funcionamento não foi retomado em sua forma plena na maioria das unidades de saúde, até porque o clima de insatisfação persiste, assim como os problemas. Tanto que, em sua quase totalidade, as UPAs estão atuando com atendimento restrito a pacientes de urgência e emergência com classificação de risco vermelha (apenas casos graves, com necessidade de atendimento imediato e risco de morte). Ou seja, caso um cidadão camaçariense necessite utilizar o serviço de saúde pública em Camaçari, a menos que esteja à beira da morte, terá dificuldade de receber o acolhimento e a orientação que precisa.
O clínico geral Artur Sampaio atua em Camaçari desde 2003 e afirma, ponderando e eliminando qualquer risco de ser dramático, que a saúde pública do município está à beira de um colapso. “No setor de Urgência e Emergência, estamos vendo o desmonte gradativo de uma rede que já foi considerada de excelência. No ano passado, a gestão fechou a Upa da Gleba B, equipamento de extrema importância para a rede. Também houve a tentativa descabida e irresponsável de fechar mais duas UPAs (a de Abrantes e a de Monte Gordo), mas graças aos esforços da imprensa, dos servidores e da população, o gestor recuou dessa decisão”, recorda.
Outra medida que prejudicou diretamente a população foi a demissão de sete médicos da UPA Nova Aliança, que já funcionou com quatro profissionais no plantão e hoje conta com apenas dois nas 24 horas. “Isso, além de gerar a sobrecarga do plantonista, aumenta significativamente o tempo de espera pelo atendimento, o que descaracteriza a função da urgência e emergência. Para piorar, o SAMU foi desmontado. Nenhuma das seis ambulâncias está funcionando e até o número 192 foi desativado”, conta, acrescentando que não compreende os motivos para tanto descaso. “Esse é um mistério que uma boa auditoria poderia desvendar”, sugere, deixando claro que, para ele, a desculpa de que falta dinheiro é uma justificativa nada convincente.

Drogas e crime organizado assustam população
A falta de segurança aumenta ainda mais a sensação de desamparo presente nas comunidades. Os próprios equipamentos públicos se tornam palco da criminalidade, como a Unidade de Pronto Atendimento de Monte Gordo, que já foi assaltada três vezes, sendo que em uma delas um tiro foi disparado e as armas dos vigilantes foram roubadas. A série de assassinatos encomendados em consequência de dívidas com o tráfico de drogas e motivações afins é assustador. No mês de agosto, por exemplo, Camaçari ganhou destaque nas páginas de jornais e sites por conta da quantidade de crimes contra a vidas em um curto período de tempo. Antes disso, porém, os índices de violência na cidade já chamavam atenção. Na primeira metade do ano, foram registrados mais de 100 homicídios, quantidade que rendeu ao município o título de cidade com maior número absoluto de execuções em toda a Região Metropolitana de Salvador.
Também são frequentes as ocorrências de assalto, sobretudo nas primeiras horas da manhã, na maioria das vezes vitimando os cidadãos que saem de suas casas com destino ao trabalho ou à procura dele.
Desemprego não para de aumentar
O desemprego, também figura entre os principais males em desenvolvimento no município. Tão temidas e frequentes quanto os assaltos, as demissões em massa retiraram centenas de trabalhadores do mercado de trabalho nos últimos anos. Tanto que as 280 fichas distribuídas diariamente no CIAT de Camaçari para pesquisa de vagas nem sempre são suficientes para a demanda de desempregados interessados em reconquistar o status de trabalhador formal.
Para o operador de produção e inspetor de qualidade José Ribeiro, 42 anos, morador do Phoc II, a luta para voltar a atuar no ramo da indústria tem sido árdua. Após adquirir experiência em duas empresas situadas na área do Polo Industrial e graduar-se em engenharia química, imaginou que o preparo prático e teórico garantiria um retorno mais tranquilo à rotina de labor. No entanto, ele está há dois anos colecionando tentativas frustradas. “Sempre ouvi que não faltam empregos e sim profissionais qualificados. Parece que este adágio está ultrapassado, porque quem não tem contatos, mesmo tendo um bom currículo, enfrenta muita dificuldade para encontrar um emprego”, opina.
As frustrações de José Ribeiro não se baseiam apenas na própria experiência de busca por um emprego, mas no cenário desmotivador que enxerga no setor industrial. “O Polo não é mais o mesmo. O que antes parecia um coração pulsante, hoje se assemelha a um cemitério. As empresas estão diminuindo a produção, estão fechando, estão indo embora. E o que mais me deixa triste é ver que o poder público parece não se importar com isso. Acho que a gestão municipal deveria pelo menos mostrar que está preocupada e tentar impedir que o Polo Industrial vire ruínas”, declara, deixando escapar seus anseios para o futuro. “Espero que essa mudança de governo seja pra melhor”, revela.
O prefeito Ademar Delgado, diante da oportunidade de justificar o motivo do declínio na qualidade dos serviços públicos e na geração de oportunidades, declarou que fez o seu melhor. “Nestes quatro anos, realizamos o que foi possível, da melhor forma possível, dentro das limitações orçamentárias impostas pela crise econômica”, afirma, colocando a culpa da administração morna na ausência de crescimento da receita arrecadada. Apesar de admitir dificuldades financeiras, revela que, do seu ponto de vista, em muitos aspectos a gestão vigente foi a melhor de toda a história de Camaçari. “Em determinadas áreas, este foi o melhor governo. Fiz mais do que todos os meus antecessores juntos”, finaliza.
Questionado pela reportagem da Nossa Metrópole sobre a esperança depositada na futura gestão para a solução de tantos e tão graves problemas, Antônio Elinaldo, o próximo prefeito de Camaçari, afirmou que foi justamente o desejo de mudanças que o motivou a pleitear o cargo de chefe do executivo. “Eu compartilho desta mesma insatisfação e desejo de mudança. O povo exigiu uma renovação e é isso que nós vamos promover. Iremos trabalhar com muita dedicação para que a população de Camaçari possa contar com serviços públicos de qualidade”, garante, nutrindo de esperança os anseios por dias melhores.
O povo, ciente do poder da própria voz, não cessará de lutar pelo tratamento que merece. Não se acostumará com o descaso e o sofrimento. Não se calará até ter de volta à terra das oportunidades que tanto orgulho já inspirou.
Por Wesley Sobrinho