Anitta: ‘Vou sair mais inteligente do isolamento’

Entrevistada de sua janela, cantora conta o que aprendeu sobre política, fala da carreira gerida por gravadora internacional e revela vontade de ser mãe: ‘Se soubesse da quarentena, teria engravidado’

De quem não sabia nada sobre política à terceira pessoa com mais engajamento nas redes sociais quando se fala do assunto no Brasil. É o que revela um ranking feito pela empresa de pesquisa Quaest, que avaliou a influência de Anitta desde que ela começou a se posicionar politicamente, amparada pelas aulas com a advogada criminalista Gabriela Prioli.

As conversas viraram lives com sucesso de audiência nessa quarentena. No levantamento, a maior cantora pop do país só ficou atrás do presidente Jair Bolsonaro, na primeira posição, e do youtuber Felipe Neto, o segundo na lista. A ideia de procurar saber mais sobre os rumos do país veio depois de muita cobrança para que ela se posicionasse nas últimas eleições.

— Como me posicionar sobre um assunto que não entendo? — questionou Anitta, que agora, aos 27 anos, sente-se mais capaz de se colocar. — Aprendi o que é executivo, legislativo e judiciário. Sei quem cuida das leis e quem executa. Também entendi que o poder está nas mãos do povo.

Anitta é a convidada do “Entrevista na janela”, série em vídeo produzida pelo GLOBO para esse período em que cientistas e autoridades médicas recomendam o distanciamento social — o humorista Fábio Porchat, e os atores Antonio Fagundes, Maitê Proença e Deborah Secco já participaram. A entrevista foi realizada pela repórter Maria Fortuna por telefone e gravada por um drone.

Nesta conversa, ela, que finaliza um disco produzido fora do Brasil ainda sem previsão de lançamento, também fala de suas lives (a da última terça-feira feira bateu um recorde: foram mais de 1,8 milhão de likes em menos de uma hora), de seu programa no Multishow (em que já conversou com o cantor colombiano Maluma e lançou música nova de Katy Perry), do novo namorado e da vontade de ser mãe.

Sua quarentena está sendo bem produtiva, né? Com aulas de política, piano, francês, lives e programa no Multishow. Tem música nova também?

Não estou fazendo trabalho criativo, é um momento diferente para mim. Estou aproveitando a minha casa, que nunca aproveitei, os meus cachorros. Estou mais para a vida pessoal mesmo.

Falando em vida pessoal, assim que começou namoro novo, com Gui Araújo, veio a quarentena e ele foi passar o isolamento na sua casa. Como está sendo a convivência intensa?

Eu sou intensa, amor.Troco de namorado na vida, por que não na quarentena, né (risos)? É diferente, você já acorda e dorme com a pessoa, não tem o descanso de nem ir na rua e voltar. Mas é legal, uma experiência nova, antropológica (risos).

Você tem feito lives sobre política com a advogada criminalista Gabriela Prioli, falando de um jeito simples sobre o assunto, sem vergonha de perguntar coisas básicas. Debateram sobre Constituição, direita e esquerda, fascismo. Quais é o próximo assunto?

Vamos explicar às pessoas o que foi a ditadura.

O que você aprendeu de mais importante até agora?

Que a nossa política foi montada de uma forma em que ninguém manda sozinho, que a gente consegue vencer com a força do povo. Porém, precisa de mais educação e estudo para saber fazer essa cobrança e saber que o poder está na mão das pessoas. É fornecido um tipo de ensino que não deixa a gente perceber. Eu mesma precisei fazer essas lives para ter noção do papel de cada um na sociedade.

Na prática, aprendeu, por exemplo, o que são os três poderes e para que servem?

Claro, consegui aprender! Executivo, legislativo e judiciário. Agora sei, quando estou votando, quem está em qual. Sei quem cuida das leis e quem executa. É uma coisa que a gente passa superficialmente na escola e acaba não tendo noção. Agora, já estou craque (risos).

“”Nossa política foi montada de uma forma em que ninguém manda sozinho, que a gente consegue vencer com a força do povo””

ANITTA
contando o que mais aprendeu nas conversas com Gabriela Priolli

Deu para descobrir se você se enquadra mais à esquerda, à direita ou no centrão?

Ainda não. Ela (Gabriela) falou que demora um tempo mesmo. Com muita leitura e entendimento, vai encontrando ali o seu lado. O que não sou é extremista. Não sou de defender uma ideia e nunca mudar. Estou disposta a ouvir todos os lados, sou bem maleável.

O que acha do governo Bolsonaro, da postura dele diante do combate à pandemia de coronavírus?

Está confuso. É preciso definir uma diretriz e ter coesão, coerência, porque está tudo muito instável. Esse troca-troca (de ministros) passa “desestabilidade”. A agressividade passa insegurança. Quando se é agressivo, se oprime quem pensa diferente. Quando se aceita um cargo público, deve-se trabalhar para todos e não só para quem pensa igual. Isso me dá um pouquinho de medo.

E sobre o governador do seu estado (RJ), Wilson Witzel, que teve um postura diferente do presidente diante da pandemia, o que achou?

Não tenho condições de dar opinião sobre o governo dele ainda, mas é um bom ponto para eu ir atrás.

Nas eleições de 2018 você foi cobrada por não se posicionar politicamente. Recentemente, disse que não poderia se posicionar sobre algo que não entende. Esse foi o seu motivo, mas o que acha de artistas que preferem não se posicionar para não perder patrocínios, contratos publicitários e seguidores?

Olha, falo por mim. Cada um sabe o que consegue aguentar ou não, tem sua forma de ver a vida, achar o seu papel na sociedade. Não sou do tipo que impõe algo a alguém. Fiz porque acho que esperavam de mim uma coerência. Gosto de dar opinião sobre tudo, seria estranho se eu não me posicionasse. Gosto de saber das coisas, de aprender. Tento ser coerente com quem sou. Mas não julgo o outro. Cada um tem sua escolha de vida.

“Eu ainda estou buscando o meu ponto de vista. Quero fazer com que as pessoas se interessem, estudem, entendam e criem opiniões por elas mesmas.”

ANITTA
sobre buscar se informar sobre política

De quem não sabia nada de política à terceira pessoa com mais engajamento nas redes sociais quando se fala do assunto no Brasil. Essa foi a conclusão da empresa de pesquisa Quest. Qual é a importância disso?

Fiquei surpresa. Acho que é importante. A minha presença e a do Felipe Neto nessas pesquisas mostra que estamos fazendo efeito na tentativa de fazer o jovem se interessar pela política. Eu também não me interessava. A gente começa a pensar que as coisas não mudam no nosso país, e eu queria que fosse diferente. Tanto eu quanto o Felipe, que é meu amigo, a gente conversa bastante, não queremos trazer as pessoas para o nosso ponto de vista. Eu ainda estou buscando o meu. Quero fazer com que as pessoas se interessem, estudem, entendam e criem opiniões por elas mesmas. Coloquem na cabeça o que é o Brasil e o que elas acreditam ser o melhor para o país. Fico feliz não por estar no ranking, mas pelas pessoas estarem aprendendo junto comigo.

Vai surgir uma Anitta diferente pós-quarentena, né? Que Anitta vem aí?

Vou sair mais inteligente, mais conhecedora dos assuntos. Quanto mais tempo me dão, mais aprendo. Mas sem pressão (risos). Faço as aulas de política uma vez por semana, leio coisas, assisto a documentários. Mas também faço meu programa. Não estou completamente parada. Estou focada, dedicada a aprender, trabalhar um pouco e descansar um pouco.

Seu posicionamento está fazendo efeito. Após um debate com você nas redes, o deputado Felipe Carreras (PSB) recuou na medida provisória que previa a isenção de pagamentos de direitos autorais a compositores. Você também criticou a MP da grilagem. Além dos assuntos da sua classe, o meio ambiente e a causa indígena te mobilizam. Por quê?

São assunto com que sempre me preocupei. Depois que conheci a Luísa Mell (ativista da causa animal), abri mais minha cabeça. Sempre vi a natureza como importância número um da vida. É um uma coisa mágica, divina, estamos vivos por causa dela, um bem que nos foi dado e que é perecível. Acaba se continuarmos usando sem consciência. E os índios têm tamanha importância porque também foram violados, nossa terra é deles. Foram invadidos, explorados. Acho tão injusto o que aconteceu. A conexão harmônica deles com a natureza é uma aula de vida.

“Minha vida é fazer festa, amo! Mas estou amando ficar aqui parada, finjo que estou de folga, é tão gostoso.”

ANITTA
Como vê os protestos que tomaram conta do mundo pelo assassinato do afroamericano George Floyd? Nós também temos mortes diárias no Brasil, tivemos o caso do menino João Pedro, que levou um tiro de fuzil da polícia…

Acho que esses acontecimentos históricos, a pandemia, vieram para reensinar o homem a ter um padrão de vida, prioridade diferentes. Essas manifestações servem para que as pessoas parem e pensem no que tem valor, que respeitem e se coloquem no lugar do outro. O mundo precisa disso nesse momento.

Você roteiriza, filma e apresenta suas lives. Acha que ai está um caminho possível para os artistas no futuro pós-pandemia?

Futuro, não. No futuro, volta o tête-à-tête, o cara a cara, essa energia não tem igual. Acho que é uma maneira de cada artista se encontrar, se reinventar, descobrir talentos que não conhecia. Mas se isso não está na sua veia, não precisa forçar, né? Tem gente que não curte, não se identifica.

No início da quarentena você disse que não ia fazer live. O que te fez mudar de ideia?

Não tinha encontrado uma maneira de fazer sem trazer milhares de pessoas para a minha casa. Gosto de cenário, trocas de lugares… Demorou para ter as coisas prontas para fazer do jeito que acho ok. Uma câmera me seguindo no plano sequência, minhas bailarinas interagindo comigo via vídeo… Achei uma fórmula.

Você é festeira, sua casa é point de noitadas com astros da música internacional. Como está sendo viver sem festa?

Ai, cara, posso te falar? Estou gostando (risos)! Nunca pensei que fosse falar isso. Minha vida é fazer festa, amo! Mas estou amando ficar aqui parada, finjo que estou de folga, é tão gostoso. Vejo televisão, durmo. Estou conhecendo um lado meu, calmo, que não imaginava.

“Agora o contrato é internacional. As decisões estão sendo tomadas por essa equipe de fora. Não estou nem sabendo, eles só mandam “faz isso, faz aquilo”. Estou adorando.”

ANITTA
sobre ter a carreira gerida pela Warner internacional

Outro dia, na sua live, você foi vestida de política, pediu sugestões ao público para melhorar o Brasil. Essa história de Anitta presidente pegou, né, menina?

A gente brinca com as coisas que falam de mim. Cada semana, pega um assunto… Na semana anterior, fui de lingerie porque tinham falado: “Ela precisa do corpo para aparecer”. Depois, foram as notícias de política. Pensamos: “Vamos me colocar como presidente, uma presidente moderna, fashionista”. Mas eu nem tenho nem idade para isso, gente.

Nesse programa da lingerie, você deu dicas sexuais para as pessoas na quarentena. Como está sendo, está rolando sexo na quarentena?

A gente dá dica de sexo, faz brincadeira de juntar pares on-line. Sou uma pessoa tão experiente nisso, já vivi tantas coisa, né, minha querida? Por que não passar as vivências?

Dividir com a mulherada e ensinar os homens, né?

Pode ser, quem estiver precisando.

No programa, você também brincou com fake news. Abriu um deles assim: “Casei e estou grávida”…

Um site de fofoca publicou que eu estava grávida e tinha casado no quintal da minha casa numa cerimônia secreta. Eu tinha passado a tarde gravando o programa e, de repente, aparece “Urgente! Anitta se casou nesta tarde…”. A gente resolveu brincar, porque não deixar de ser engraçado, né?

Combater notícias falsas com humor é uma boa maneira de mostrar o ridículo, né? Você também brincou com áudios vazados… Teria algum recado que queira passar agora?

Não. Como sou muito comunicativa, quando quero falar algo sério, falo nas minhas redes sociais. Porque o pessoal entende a minha maneira de falar. Depois, não volto mais ao assunto.

“Se soubesse que teria quarentena, teria engravidado um mês antes e agora já estaria cuidando (risos)”

ANITTA

Quais são os planos para o futuro? O que passa por sua cabeça empreendedora?

Ficar quietinha era algo que eu já estava planejando este ano. Minha carreira agora está na mão de uma equipe gringa, firmei um contrato com uma gravadora internacional. É a mesma gravadora, a Warner, mas agora o contrato é internacional. As decisões estão sendo tomadas por essa equipe de fora. Não estou nem sabendo, eles só mandam “faz isso, faz aquilo”. Estou adorando. Se achar que devo, depois volto a comandar tudo, mas agora sigo as coordenadas e acho delicioso.

Alguma novidade musical, parcerias para acontecer?

A gente tem lançamentos para as próximas semanas. Vamos lançar duas parcerias com cantores latinos conhecidos lá fora, mas não tanto aqui. É uma música em espanhol. Estão tocando o projeto lá na gringa. Antigamente, eu comandava tudo, tomava as decisões, bolava a estratégia e passava para o mundo inteiro. Agora, eles falam “tira uma foto”, eu tiro, “faz um vídeo”, eu faço. Fazem os planejamentos, as escolhas e mandam para os outros países. Aí, eu sou só artista. Estou tendo tudo que sempre quis: deitar, dormir, acordar e ser feliz (risos).

Depois de tudo que conquistou, o que falta?

Nada, estou 100% realizada. Jamais tomaria a decisão de colocar minha carreira nas mãos de terceiros se não estivesse. Agora, seja lá o que acontecer na minha carreira está tudo bem, já realizei muitos sonhos, não estou no desespero, está tudo ótimo. Então, decidi cuidar mais de mim. Meus sonhos estão mais ligados à vida pessoal. Curtir minha família, viajar.

Ser mãe passa pela cabeça?

Com certeza! Se soubesse que teria quarentena, teria engravidado um mês antes e agora já estaria cuidando (risos). O bebê estaria aqui, passeando, curtindo a quarentena. Era o tempo de engravidar, barrigão crescer, o filho sair, mamar… Ia ser mara.

Então, a vontade já está batendo…

Já bate. Acho que com uns 30 anos a gente planeja a chegada.

Fonte: Globo.com

Clity