“Nós não vamos ter vacina agora e nem em 2021”, alerta virologista

Foram retomados, este mês, em todo o Brasil, os testes da vacina que tenta combater a Covid-19. Desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica britânica AstraZeneca, a vacina está com inscrições abertas para voluntários na Bahia.

Contudo, apesar do otimismo na produção da vacina ainda este ano, o virologista Gúbio Soares acredita que uma vacina realmente eficaz só possa ser disponibilizada em 2022 e que esta pressa em se obter o produto o mais rápido possível envolve mais jogos políticos do que garantia de imunização da população.

“Nós não vamos ter vacina agora e nem em 2021. Os anúncios que temos não são reais. Nós não vamos ter uma vacina agora em dezembro porque os prazos já estão curtos demais. Estão se quebrando uma série de protocolos”, criticou o virologista.

Gúbio explica que para se ter uma garantia real dos efeitos da vacina no organismo, são necessários diversos testes que possam suprir dúvidas atuais sobre o vírus, a exemplo do período de imunidade e proteção após a infecção.

“Como se tem uma vacina para aplicar já em dezembro sem ter estas respostas? Isso não é real. Nós precisamos de mais tempo para aplicar esta vacina, porque não sabemos os efeitos colaterais reais em curto tempo”, apontou o especialista.

Pressão nos governos

Gúbio comentou também que muito do que se acontece ao divulgar datas precipitadas sobre a produção da vacina é por conta das indústrias farmacêuticas, que pressionam os governos.

“A indústria farmacêutica mundial faz uma pressão muito grande nos governos, e os governos começam a falar que a vacina vai sair. Por exemplo, o governador de São Paulo [João Doria] disse que mesmo se a vacina tiver um resultado de 50%, ela será aplicada. Isso não existe em nenhum lugar do mundo. A vacina tem que ter um padrão de 70% pra cima de proteção”, pontuou.

Prazos realistas

Para o virologista, o prazo mais adequado para uma produção de vacina eficaz seria no final de 2022. “Acho que o número de testes no mundo desta vacina tem que ser ampliado e no Brasil também”, opinou.

Um dos fatores que explicam também a necessidade de mais tempo para se produzir uma vacina com efeitos benéficos no organismo é a mutação comprovada do vírus. “Você pode produzir uma vacina em outro país e ela não ser tão eficaz aqui, porque uma mutação significativa no vírus que circula no Brasil”, observou Gúbio.

O especialista citou, ainda, um caso de mutação do novo coronavírus que ocorreu na Espanha. “Isso [mutação] aconteceu na Espanha, mas estes trabalhos não são tão divulgados pela mídia. Existe em regiões da Espanha que houve uma circulação de um vírus claramente diferente do que o que circulou na Itália”, alertou.

“Por exemplo, existem vacinas para rotavírus que você coloca cinco tipos diferentes de vírus na vacina. Isso porque se colocar um só a vacina pode não dar uma proteção real ao indivíduo”, salientou o virologista.

Fonte: A Tarde