‘Você está demitido, Trump’: presidente dos EUA se recusa a aceitar derrota

Celebridade do mundo empresarial e dono de um império formado por cassinos e hotéis, o presidente americano Donald Trump multiplicou a popularidade com o bordão “You’re fired”, em português, “Você está demitido”, eternizado no reality show O Aprendiz. Estrela do programa exibido de 2004 a 2015 na rede NBC, Trump usava a expressão para defenestrar candidatos a um cargo de executivo em suas empresas. Na campanha de 2016, repetia a frase para “demitir” a adversária, Hillary Clinton, em debates e comícios. Quatro anos depois, com a derrota para o democrata Joe Biden confirmada, já é possível dizer que, agora, o demitido foi ele.

Enquanto você lê esse texto, é bem provável que Trump continue tocando a marcha de contra-ataque, na tentativa desesperada de abafar o que a maioria dos americanos berra sem parar: “You´re fired”. A arrastada contagem de votos nas eleições dos EUA, onde o sistema eleitoral é muito mais complexo que o do Brasil, e as ofensivas judiciais lançadas pelo presidente, em um último gesto para reverter a demissão, ainda dão um resto de sobrevida ao republicano, conhecido pela alta capacidade de resistir a cenários adversos. Sua trajetória desde que decidiu concorrer ao comando da mais poderosa nação comprova tal característica.

Então um outsider na política, o magnata conseguiu pouco a pouco vencer os 16 rivais no duelo pela indicação do Partido Republicano ao posto de candidato à Casa Branca. Entre os quais, cardeais da legenda como o ex-governador da Flórida Jeb Bush e o carismático senador Ted Cruz. Impulsionado pelas pesquisas e pela fama como astro da TV e dos negócios, ele foi gradativamente ganhando as primárias do bloco na sucessão presidencial passada.

À época, os principais líderes republicanos estavam convencidos de que Trump seria a melhor via para retomar o poder após oito anos de domínio democrata, sobretudo na disputa contra uma candidata ungida pelo popular presidente Barack Obama. Os capítulos seguintes são conhecidos. Mesmo com as pesquisas dizendo o contrário, Trump derrotou Hillary com ampla vantagem, ganhando em tradicionais redutos do partido adversários, como a hoje tão falada Pensilvânia, justamente um dos estados que ajudaram a derrotá-lo.

Nos quase quatro anos à frente dos EUA, Trump acumulou polêmicas, inimizades, denúncias, processos e rejeição crescente. Declarações controversas e com altas doses de preconceito, machismo e xenofobia – frequentemente disseminadas pelo Twitter -, medidas como a construção do muro na fronteira com o México, cerco aos imigrantes, esfacelamento das relações com velhos parceiros na Europa e o hábito de distorcer a história e os fatos a seu favor dilapidaram parte da popularidade do presidente.

Ainda assim, o presidente dos EUA resistiu à maré reversa. O que inclui a absolvição no processo impeahchment em 2019. Um inquérito conduzido pela Câmara acusava Trump de ter solicitado ajuda da Ucrânia para interferir na eleição de 2020. Nada teve força suficiente para abreviar a permanência do republicano no cargo ou retirá-lo do jogo deste ano.

Além da habilidade para mobilizar apoio maciço na imensa maioria das classe baixa e média branca, conservadora, nacionalista e religiosa, Trump tinha como trunfo os resultados econômicos. Ao longo de sua gestão, o índice de desemprego chegou a cair para 3,5%, uma das taxas mais baixas da história recente dos Estados Unidos, e o país apresentava crescimento do PIB. No pilar do capitalismo ocidental, a economia nos trilhos tem fator decisivo nas eleições.

Entretanto, no meio do caminho de Trump havia uma pandemia. A postura do presidente diante do avanço novo coronavírus e do salto gradual de mortos, marcada pelo desprezo, não raras vezes beirando o escárnio, colocou em cheque a reeleição. Ao ignorar o impacto da covid-19 na economia, Trump deu o combustível para queimar votos em redutos cruciais. Em especial, os do chamado Cinturão da Ferrugem, fundamental para a vitória obtida na sucessão de 2016.

Localizada no nordeste e meio-oeste dos EUA, a região abriga os estados de Michigan, Minnesota, Ohio, Iowa, Wisconsin e Pensilvânia. Até meados do século 20, era o maior e mais desenvolvido corredor industrial do país, abrigando gigantes dos setores siderúrgico, petroquímico, metalúrgico, têxtil e alimentício. A partir das décadas seguintes, sofreu um gradativo processo de decadência causado por múltiplos fatores, tais como recessão, perda de competitividade para nações reindustrializadas no pós-guerra, a exemplo do Japão e da Alemanha, e a baixa modernização nos processos fabris.

O declínio se agravou ainda mais com os efeitos da globalização, que corroeu a capacidade de concorrer com países de indústria automatizada e mão de obra mais barata, levando diversas companhias americanas a terceirizar a produção fora dos EUA. O abandono de fábricas é a origem do nome Cinturão da Ferrugem. Antes tradicionalmente dominada pelo Partido Democrata, a região foi para Trump em 2016.

Com o discurso focado na promessa de recuperar e gerar empregos, o republicano falou o que a maioria do eleitorado queria ouvir. Em síntese, que os chineses estavam atraindo empresas dos EUA por causa dos custos baixos de produção, roubando o ganha-pão dos americanos. Ao mesmo tempo, prometia combater imigrantes ilegais, segundo ele, também responsáveis por tomar postos de trabalho.

A crise gerada pela pandemia, somada à pouca destreza de Trump em lidar com seus efeitos, abriu espaço para a recuperação dos democratas na região. Biden ganhou em Michigan, Wisconsin, Minnesota e Pensilvânia, palco de uma virada surpreendente na reta final. Ohio e Iowa deram vitória para Trump.

No mesmo compasso, Biden conseguiu derrotar o presidente no Arizona, onde o resultado favorável a Trump era tido como certo. O democrata obteve ainda desempenho expressivo na Geórgia, historicamente republicana. Em contrapartida, a esperada “onda azul” não chegou tão grande como estava prevista nas pesquisas.

Apesar dos revezes, Trump conseguiu vencer na Flórida e no Texas, contrariando todas as projeções dos institutos, e manter a o eleitorado na grande maioria dos estados vermelhos, cor dos republicanos. A disputa pela Câmara e Senado dos EUA confirmam a força do bloco político hoje liderado pelo presidente, que demonstrou extrema disposição para resistir no cargo até o fim. Semanas atrás, pavimentou a estratégia de judicializar a eleição, baseada em acusações de fraude nos votos por correio.

Tentou interromper a contagem por meio de uma enxurrada de ações judiciais, autoproclamou a vitória antes da totalização, disparou postagens no Twitter deixando claro que se negaria a reconhecer a derrota, sem ligar para os danos à democracia americana e para as críticas de integrantes do próprio partido.

Em compasso simultâneo, disse que “a eleição está longe de acabar”, sinalizou que não tem interesse em sair da Casa Branca de maneira pacífica e acenou que, caso a judicialização não dê em nada, vai voltar ao páreo em 2024. Ou seja, mesmo demitido, Trump se recusa a ouvir o bordão que criou.

As polêmicas frases de um presidente verborrágico
“Quando o México manda seu povo aos Estados Unidos, manda pessoas com um monte de problemas e trazem estes problemas para nós. Trazem as drogas, o crime, são estupradores. E alguns deles, eu confesso, são boas pessoas. Eu iria construir um muro. E ninguém mais entraria ilegalmente”, ao propor, na campanha de 2016, erguer um muro na fronteira e jogar a conta da obra para os mexicanos

“Se as pessoas que foram mortas em Paris tivessem armas, pelo menos eles teriam uma chance de lutar. Não é interessante que esta tragédia tenha ocorrido em um dos países com uma das leis de armas mais duras do mundo? Lembrem-se: onde ter armas é um delito, só os delinquentes as possuem”, ao usar os atentados terroristas de 2015 na capital francesa para defender a flexibilização no porte de armas, durante discurso na Associação Nacional do Rifle em maio de 2018

“Nosso grande presidente afro-americano não teve exatamente um grande impacto nos bandidos que estão felizes destruindo a cidade”, ao se referir ao então presidente Barack Obama, em fala que relaciona a criminalidade aos negros, feita durante a corrida presidencial de 2016 e duramente criticada pelo teor considerado racista

“O conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses, para que a indústria manufatureira americana não seja competitiva. Nova York está congelante. Nós precisamos do aquecimento global!”, em contraposição à pauta ambiental

“É como no golf. Muitas pessoas estão começando a usar tacos maiores, que são poucos atrativos. Você vê grandes jogadores com esses tacos enormes porque eles não conseguem mais tirar uma bola da terra com um taco comum. E eu odeio isso. Sou um tradicionalista”, ao condenar o casamento entre homossexuais

“Vejo que o desinfetante elimina o vírus em um minuto. E existe uma forma de fazer algo parecido, mediante uma injeção para limpar quase tudo? Pode ser interessante tentar”, sobre o uso do produto no corpo para combater o coronavírus

“Se a Hillary Clinton não é capaz de satisfazer o marido o que a faz pensar que consegue satisfazer a América?”, ao atacar a então rival em tom machista, com base no histórico de infidelidade do seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, um dos principais nomes do Partido Democrata

Pontos fortes e fracos do republicano na eleição

Economia dava fôlego para a reeleição
Até março deste ano, o presidente americano mantinha oxigênio suficiente para continuar mais quatro anos à frente da Casa Branca. Durante sua gestão, a taxa de desemprego nos Estados Unidos caiu para 3,5%, uma das mais baixas da história recente do país, e o PIB mantinha uma trajetória ascendente. Como prova o resultado das eleições nos EUA ao longo das décadas, a economia é o maior cabo eleitoral de um presidente na mais poderosa nação do mundo.

Resistência e apoio dos conservadores
Desde que decidiu concorrer à Presidência dos EUA em 2016, Trump somou um apoio amplo entre os americanos brancos, conservadores e religiosos abrigados nas classes média e baixa. Uma vez no cargo, demonstrou capacidade de resistir e se manter competitivo para mais uma disputa.

Impactos da pandemia durante a campanha
Desde o início da disseminação da covid-19, a gestão de Trump durante a crise da covid-19 foi considerada um desastre pela imensa maioria dos americanos, como mostram sucessivas pesquisas de opinião sobre a popularidade e a aprovação do presidente. Ao ignorar o drama enfrentado por milhões de americanos, com uma postura muitas vezes próximas do escárnio, o presidente abriu o próprio flanco para a derrota. Sobretudo, porque a pandemia voltou a elevar as taxas de desemprego e colocou a economia dos EUA em curva descendente.

Perda de votos em estados cruciais
Entre os principais fatores que levaram à derrota de Trump para o democrata Joe Biden, ex-vice-presidente do popular Barack Obama, está a perda de apoio em redutos tidos como fundamentais nas eleições deste ano. Em especial, quatro estados que integram o chamado Cinturão da Ferrugem: Michigan, Minnesota, Wisconsin e Pensilvânia, palco de uma virada eletrizante na reta final da contagem. Todos eles, que eram tradicionalmente democratas, foram abocanhados pelos republicanos em 2016, devido ao discurso de Trump centrado na promessa de recuperar empregos na decadente zona industrial dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, Biden avançou sobre o eleitorado da Geórgia e do Arizona, duas das mais antigas e coesas bases do partido do atual presidente. Apesar de levar a Flórida, Trump foi derrotado justamente onde saiu vitorioso em 2016.

Fonte: Correio da Bahia