Seminário de gênero reúne mulheres negras de povos e comunidades tradicionais em Camaçari

Marisqueiras, pescadoras, representantes de povos indígenas, de matriz africana e quilombolas de Camaçari reuniram-se na manhã desta segunda-feira, 26 de julho, no 1º Seminário das Mulheres Negras dos Povos e Comunidades Tradicionais do município. A iniciativa da Secretaria do Desenvolvimento Social e Cidadania (Sedes) evidenciou a atuação dessas mulheres contra todo tipo de desigualdade, valorizando e preservando a cultura de suas comunidades originárias.

O evento, parte das comemorações da pasta pelo Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, celebrado no último domingo (25/7), trouxe como tema “Mulheres Negras: práticas e experiências contra o racismo e sexismo”. Abrindo a celebração, a herdeira da tribo pataxó, a índia Camara, deu os primeiros acordes por meio de um violino, em substituição à obviedade não menos poderosa da flecha, instrumento ao qual o senso comum costuma vincular a uma das etnias originárias de Camaçari.

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Rose Braga, gerente de povos e comunidades tradicionais da Coordenadoria de Igualdade de Direitos da Sedes, destacou a atividade como mais um momento de resistência para essas mulheres. Para ela, o seminário foi uma oportunidade para discutirem, debaterem, e também de promoverem sua cultura, sua arte, e a herança que vão deixar para as gerações futuras. “O Julho das Pretas, o Dia da Mulher Negra Latina-americana e Caribenha é um dia de luta, um dia de guerra dessas mulheres, que tanto lutam para manterem a sua cultura, a sua comunidade e o seu legado vivos”, reconheceu a gerente da coordenadoria.

Cristiane Bacelar, chefe da pasta da Secretaria do Turismo (Setur), afirmou que estimular o empoderamento da mulher negra é via para que o território se afirme como um dos 10 principais destinos turísticos do país. “Temos aqui muito enraizado o turismo étnico. E empoderar a mulher é crucial, num município que é predominantemente machista, e que nós estamos buscando esse espaço no dia a dia. Essas mulheres têm que buscar seu espaço nas áreas de poder e decisão da nossa cidade”, orientou.

Rívia Tupinambá, pajé e vice-presidente da Associação Indígena de Camaçari, entende sua participação no evento como ato de luta contra a invisibilidade a que se tenta submeter o povo indígena. “Sabemos que a Bahia tem 37 mil indígenas e são 16 etnias diferentes, então é importante que estejamos nesse movimento pra afirmar nossa luta”, declarou. Segundo Rívia, existe uma população tupinambá grande entre o litoral norte e o recôncavo baiano, que se esforça pela conquista de aldeamento que representaria a posse da terra.

Mestra Joseane Batista, representante de comunidade de samba e cultura popular, reconhece nessa articulação a conquista de espaço. “A gente tem observado que a cada ano vimos ganhando valorização, e com relação a essa questão de racismo é muito importante para nós, negros”.

Mãe Mara de Odé, do terreiro Ile Axe Omorode Messan Orun, afirmou que, em qualquer luta, inclusa a que se contrapõe ao racismo, uma mulher deve atuar de modo a fortalecer a outra. “O mês de julho é importante, pois marca a nossa luta como mulher negra. Agregar essas mulheres, fortalecê-las e empoderá-las vai fazer diferença. Uma flecha lançada não faz curva, e estamos aqui para que as mulheres se fortaleçam, se libertem”, concluiu.

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha foi criado em 1992, por ocasião do primeiro Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, em Santo Domingos, República Dominicana, como um marco de resistência e luta contra o racismo e o sexismo com as atividades do “Julho: Pretas Porquê”.