Livro Renato, o Russo, está em campanha de financiamento coletivo para ser lançado

Há 25 anos, precisamente em 11 de outubro de 1996, o cantor e compositor Renato Russo morria vítima de complicações da AIDS aos 36 anos, deixando uma grande lacuna na música brasileira. O único roqueiro do Brasil a ultrapassar a marca dos 10 milhões de discos vendidos não foi nunca esquecido.

Depois de dez anos de pesquisas, coletas de dados e análises da obra do vocalista da Legião Urbana, Julliany Mucury, mestre e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora do sujeito contemporâneo, escreveu o livro Renato, o Russo, com enfoque particular e cuidadoso.

A obra, editada pela Garota FM Books, está em uma campanha de financiamento coletivo pelo Catarse para lançamento e vai celebrar o legado de Renato Russo em outubro, quando sua morte completa o vigésimo quinto ano. Para participar, acesse: www.catarse.me/renatoorusso.

Por telefone, estudiosa de Brasília conta que partiu do questionamento: “Renato é poeta?” para mergulhar na trajetória de um dos maiores poetas e cancionistas da história da música brasileira.

“Este livro nasceu em 2009, numa mesa do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) Brasília, em que estávamos eu, o poeta Nicolas Behr, o cineasta Vladimir Carvalho e minha futura orientadora Sylvia Helena Cyntrão, na noite de autógrafos e lançamento do livro Renato Russo, o Filho da Revolução, do jornalista Carlos Marcelo. Falávamos sobre Renato e eis que na roda de conversa surge a pergunta: Renato Russo foi poeta”?, conta.

Autoria exclusiva

“No mesmo instante, eu e Sylvia percebemos que não havia uma resposta simples e daí começou a ser plantada a semente do que viria a ser minha tese de doutorado, defendida em 2019 na Universidade de Brasília (UnB). Nela, eu buscava investigar o sutil vínculo entre os conceitos de literatura e canção – seja na teoria, seja nos momentos em que eles quase se confundem, materializados”, detalha.

Jullianny afirma que, para responder à indagação sobre Renato poeta , foi em busca de 29 letras de autoria exclusiva do Renato, algumas delas descobertas há pouco tempo.

“Dá para a gente traçar um grande legado poético do Renato e o legado que ele quis deixar como mensagem, algo importante para ele, que se preocupava muito com as palavras”, acrescenta Julliany.

A pesquisadora, que apresenta a contribuição de Renato Russo para a cultura e o pensamento brasileiro, afirma que seu maior desafio foi fazer com que as pessoas da academia acreditassem que este trabalho deveria ter o respaldo que merecia.

“A ideia era levar para o campo da literatura um cancionista do rock, de modo não superficial e com o aporte teórico que a academia exige”, observa.

A pesquisa foi extensa. A autora conta que leu quase 100 livros, além de matérias de jornais, entrevistas e registros de shows. Mas não só isto. Na publicação ela também faz uma rica pesquisa do cenário político cultural que Renato viveu e claro, o cenário efervescente do rock, que trouxe à cena outras bandas de enorme sucesso de público.

No terceiro capitulo da obra, a escritora realiza uma viagem poética em nove álbuns do cantor e compositor: Legião Urbana, Dois, Que país é este, As quatro estações, V, O descobrimento do Brasil, Equilíbrio Distante, A tempestade ou O livro dos dias e Uma outra Estação.

Personagem

Para Jullianny Mucury, Renato Russo foi um personagem criado pelo cantor e compositor, tese que sustenta na obra.

“Renato Russo, criação de Renato Manfredini Jr., é uma personagente-escudo para se enquadrar na necessidade de sobreviver no habitat das gravadoras e dos contratos fonográficos. Dado e Bonfá relatam que, por vezes, Renato não interagia com os demais membros da banda quando em turnê, muito para poupar a voz ou mesmo, por vezes, pela ressaca devido ao abuso de álcool e drogas”.

“Esta vida à parte, como alguém fora de contexto, dialoga com um processo criativo que busca a redenção ao longo da jornada e se identifica com o público. Nesta cultura industrializada que emerge no pós-guerra, berço do rock and roll e suas variantes mais agressivas (punk rock, hardcore, heavy metal), tolerar é uma estratégia que torna possível aceitar a ideia de nos vincularmos à massa e ao consumo capitalista”, prossegue.

E mais adiante: “Renato Manfredini Jr. viabiliza Russo através das seguintes instâncias: extensão vocal, timbre de voz e capacidade composicional. (…) Como trovador que sempre foi, além da voz e da composição, Renato também era alimentado pelo discurso panfletário dos shows e suas performances para lá de esquisitas”.

“Ele não dançava, não era sensual ou dominava o palco, como Ney Matogrosso. Ele se jogava, numa antidança punk de exorcismo do eu, chacoalhando o corpo e os braços, desconstruindo o espaço do dândi, algo que poucos reproduziram. Ao ser no palco o mesmo sujeito errático que era fora dele, Renato Manfredini Jr. escolheu um personagente aglomerador e intruso: Renato Russo”, afirma.

O livro, que tem capa assinada por outro brasiliense, o artista plástico Alex Moraes, será impresso em três cores (laranja, roxa e preta).

Vale a pena colaborar com o financiamento coletivo e aguardar a publicação do livro, um trabalho que contribui muito para manter viva a memória do artista e da sua obra.

Fonte: A Tarde