Doença de Haff afeta 55% das pessoas que consomem peixe contaminado; veja sintomas

 

A Doença de Haff, conhecida popularmente como “doença da urina preta”, acomete 55% das pessoas que consomem peixes contaminados pela toxina que origina essa enfermidade. Essa foi a principal conclusão de um artigo publicado pela Secretaria Municipal da Saúde de Salvador (SMS), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na revista Lancet, uma das mais renomadas no mundo científico.

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Para chegar a esta conclusão, o estudo analisou quantas pessoas das que consumiram o mesmo pescado tiveram os sintomas da doença. “Do ponto de vista da epidemiologia, buscamos entender quantas pessoas consumiram o mesmo peixe e desenvolveram a doença, com a identificação do aumento da enzima CPK. Poucos artigos trazem essa informação”, explica a epidemiologista Cristiane Cardoso, coordenadora do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) de Salvador, ligado à SMS.

A alteração na enzima CPK (creatinofosfoquinase) é o principal sintoma da doença de Haff. Ela é uma proteína presente nos músculos e outros lugares do corpo, como cérebro, pulmão e coração. O nível considerado normal é em torno de 200 U/L. No estudo, os pacientes contaminados pela toxina do peixe tiveram taxas de 9 mil U/L e até 132 U/L.

“A doença é caracterizada por uma mialgia e dor intensa, principalmente na área do pescoço, com o nível da CPK elevado. Quando ocorre a lesão, o rim elimina o metabólico muscular, que sai através da urina. Por isso que ela começa a mudar de cor, entre o marrom e o avermelhado, causando uma complicação renal. Alguns pacientes precisam se internar e fazer diálise”, explica a sanitarista Ana Paula Pitanga, diretora do Centro de Operações e Emergência em Saúde Pública (COE), ex-diretora do Cievs.

Segundo Cristiane, essa dor nos músculos é aguda e intensa e começa a aparecer até 24 horas da ingestão do peixe. O tempo médio de aparecimento desse sintoma é de 5 horas e 30 minutos após a refeição.

Toxina nos peixes
Outro pioneirismo do estudo publicado na Lancet foi a identificação da toxina no peixe. Ela foi observada em duas espécies: o olho de boi e o badejo. “Existem poucos artigos publicados sobre a Doença de Haff. No Brasil, não existem estudos que possam identificar essa toxina e a gente conseguiu, com esse trabalho em parceria, encontrar em duas amostras de peixe, que isolamos do surto de 2020”, revela a sanitarista Ana Paula Pitanga.

Além da SMS e Fiocruz, participaram do estudo a Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), o Centro de Estudos do Mar, da Universidade Federal do Paraná e o Instituto Federal de Santa Catarina.

A suspeita é de que a toxina esteja em algas marinhas ingeridas pelos peixes e que são passadas para os humanos através da alimentação. “Os peixes, ao consumirem as algas, acumulam a toxina na cadeia trófica. Como ela é termoestável, ou seja, mesmo ao fritar e cozinhar o peixe, ela não se decompõe, e contamina os humanos pela ingestão”, esclarece Cristiane Cardoso.

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Doença tem segundo surto em cinco anos
Entre 2016 e 2017, no primeiro surto da doença, 65 casos foram investigados, em Salvador, e 88% destes pacientes foram internados. Entre 2017 e 2019, 12 ocorrências foram registradas. Já entre 2020 e 2021, um novo surto ocorreu na cidade, de setembro a janeiro de 2021 – surgiram 21 casos suspeitos e 16 confirmados.

O estudo da SMS publicado no Lancet analisou somente o período de dezembro de 2016 a janeiro de 2021, a partir do acompanhamento dos casos suspeitos e testagem de amostras de peixes. A partir de abril deste ano, novos casos surgiram: dos 14 investigados, nove foram confirmados.

Na Bahia, 22 pessoas estavam com suspeita da doença de Haff, neste ano. Desses, apenas 18 foram confirmadas. O município com mais casos é a capital baiana, seguido de Alagoinhas, Maraú, Simões Filho, Mata de São João e São Francisco do Conde. Os dados são da Sesab, do último boletim, de 26 de outubro. A pasta informou que eram as informações mais atuais, mas, por ser feriado, se houvesse novos casos, eles poderiam ser atualizados somente a partir da terça-feira (16).

De acordo com a secretaria, a faixa etária mais acometida são as pessoas de 35 a 49 anos (38,9%). A maior parte dos contaminados é homem (66,7%). Em 2020, 45 casos foram notificados, sendo 40 confirmados. Já entre 2016 e 2017, foram 71 notificados. Em 2018 e 2019, não houve registro de contaminação.

Apesar do aumento de casos em 2021, Cristiane e Ana Paula advertem: a doença é rara e não deve ser motivo de preocupação. “Ela raramente leva à morte e não há perigo nos sintomas. Mas, é preciso que o tratamento seja cuidadoso quando houver qualquer suspeita, até para evitar o uso de anti-inflamatório, porque pode causar alguma gravidade, do ponto de vista renal. Tirando isso, a evolução é boa e os sintomas duram em torno de três a cinco dias”, tranquiliza Cristiane. Ainda não há tratamento específico.

Quem tiver os sintomas da doença de Haff deve notificar à SMS através do site do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs). Neste link, você encontra um formulário a ser preenchido, para relatar a situação e sintomas às autoridades.

Fonte – Correio