Em Salvador, pacientes aguardam até 5h nas ambulâncias por uma regulação do estado

Quando alguém precisa de uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), em Salvador, a espera é de 15 a 30 minutos pela chegada da equipe, mas pacientes com problemas crônicos estão aguardando até 5h para conseguir uma vaga nos hospitais da capital. As 62 ambulâncias atendem cerca de 300 pacientes por dia, o que representa uma média de 12 casos por hora, e 60% são de pessoas com problemas clínicos. Uma nova base do Samu foi inaugurada nesta terça-feira (21), na Boca do Rio.

O coordenador de Urgência e Emergência da capital, Ivan Paiva, explicou que mesmo após o número de casos de covid-19 ter diminuído, a demanda do Samu permanece a mesma. Outra coisa que não mudou é a demora para conseguir regulação. Em alguns casos, a espera pode chegar a 5 horas. Nesse período, o paciente está sendo assistido na ambulância, mas o veículo fica impossibilitado de atender novos chamados.

“A demora depende do perfil. Às vezes, um paciente de trauma, o Hospital Geral do Estado, o Hospital Municipal ou o Hospital do Subúrbio acolhem de uma forma mais rápida. Pacientes mais crônicos, com diabetes, que têm AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou infarto, às vezes, há uma dificuldade maior. Varia bastante, tem pacientes que demoram 30 minutos para serem acolhidos e outros que levam 4h ou 5h”, afirmou.

Ele conta que a população, muitas vezes, não entende o motivo da ambulância não sair correndo para o hospital depois de socorrer o paciente e explica que, primeiro, é preciso conseguir uma vaga com a Central de Regulação, de responsabilidade do governo do estado. Paiva disse que as equipes têm recorrido às Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para conseguir liberar os veículos.

“As UPAs têm sido nosso grande apoio. Para não deixar o paciente na ambulância, a gente termina colocando nas UPAs e, muitas vezes, sobrecarregando essas unidades, que têm uma sala vermelha para atender quatro pacientes, mas acaba recebendo oito pessoas enquanto aguarda a regulação do estado. A demanda é muito grande, muito em função dos leitos de Salvador serem ocupados por pacientes do interior da Bahia”, disse. Ele contou que pessoas com plano de saúde também estão tendo dificuldade para conseguir regulação para hospitais particulares.

Procurada, a Secretaria Estadual da Saúde (Sesab) disse, em nota, que todos os pacientes são atendidos e regulados seguindo um protocolo internacional de classificação de risco, que é uma ferramenta utilizada nos serviços de urgência e emergência, voltada para avaliar e identificar os pacientes que necessitam de atendimento prioritário, de acordo com a gravidade clínica, potencial de risco, agravos à saúde ou grau de sofrimento.

“As unidades estaduais seguem o Protocolo de Manchester, no qual classifica o paciente como Emergência (Vermelho), Muito Urgente (Laranja), Urgente (Amarelo), Pouco Urgente (Verde) e Não Urgente (Azul)”, diz a nota. A Sesab também reclamou que Salvador tem baixa cobertura de atenção básica e que isso tem levado os pacientes a evoluírem para casos mais graves e sobrecarregado o sistema.

Já a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informou que, durante gestões anteriores, a capital baiana apresentava um dos menores índices de cobertura de atenção básica do país. Em dezembro de 2013, Salvador tinha apenas 18% da população soteropolitana assistida pelos serviços primários. “Nos últimos anos, registramos o maior crescimento de cobertura de atenção básica entre as capitais brasileiras, saltando para 60% em 2022, o que representa significativos investimentos em novos postos de saúde e contratação de recurso humanos como médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e dentistas”, ressaltou a pasta, em nota.

Segundo a SMS, nos últimos três anos foram inauguradas 25 novas unidades, com farmácias abastecidas, novos equipamentos e equipes completas, totalizando mais de R$ 23 milhões investidos pelo Executivo municipal. O investimento possibilitou ainda, no mesmo período, a implantação de 52 novas equipes de saúde da família, que passaram de 311 para 363.

“É importante destacar que pacientes do interior da Bahia também se utilizam dos serviços de Salvador, uma vez que a capital possui pouco menos de 3 milhões de habitantes e quase 4 milhões de cartões do SUS emitidos, dado que demonstra a migração de pacientes do interior do estado para capital em busca de atendimento causada pelo vazio assistencial em macrorregiões do território baiano”, finalizou a SMS.

Perfil
O tipo de paciente atendido pelas ambulâncias do Samu é variado, porém 60% dos pacientes apresentam algum tipo de problema clínico, 25% foram vítimas de acidentes e os demais são casos pediátricos, gestantes em trabalho de parto e pacientes psiquiátricos. O titular da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Décio Martins, disse que a demanda ainda sofre os efeitos da pandemia.

“A covid nos impôs algumas questões, como o agravamento de doenças, porque as pessoas passaram a não se cuidar. Estamos vendo pessoas agravadas de infarto, AVC e câncer porque foram dois anos em que as pessoas praticamente não se cuidaram. O papel do Samu é preponderante nesse enfrentamento inicial de urgência e emergência, por isso, a estratégia de descentralização [das bases do Samu] é importante para melhorar a eficiência e o atendimento ao cidadão”, afirmou o secretário.

Nova unidade
O Samu tem 62 ambulâncias na capital, oito ‘motolâncias’ e duas ‘ambulanchas’, que realizam cerca de 300 saídas por dia, ou 12 casos por hora, além de 13 bases e dois pontos de apoio. A 14ª base foi inaugurada, nesta terça-feira (21), no bairro da Boca do Rio. Segundo a Prefeitura, a descentralização das equipes tem como objetivo reduzir o tempo médio de espera por atendimento, atualmente variando entre 15 e 30 minutos. A estimativa do prefeito Bruno Reis é que 121 mil moradores sejam beneficiados com a nova estrutura.

Nova base do Samu inaugurada na Boca do Rio nessa terça-feira (Foto: Beto Jr. Secom PMS)
“Com a descentralização, o serviço fica ainda mais eficiente, colocando as bases mais próximas das pessoas, onde há uma maior concentração populacional. Sempre que há uma demanda, a gente consegue chegar com um tempo menor. A gente chega com, no máximo, 30 minutos e vamos reduzir esse tempo de atendimento, porque sabemos que muitas vezes um ou dois minutos são cruciais para salvar uma vida”, afirmou.

A nova base fica na Rua Elesbão do Carmo, 254, próximo ao antigo Centro de Convenções. Antes, as unidades mais próximas eram as bases da Paralela (Unijorge e UniFTC) e um ponto de apoio no Imbuí.

A professora Maria Rita Lopes, 55 anos, mora na Boca do Rio e comemorou a inauguração. “Como terá uma base mais perto o serviço deve ficar mais rápido. Acredito que todo mundo ganha, a população é atendida de forma mais ágil, as equipes se deslocam mais rápido e o poder público economiza combustível”, disse.

A unidade tem capacidade para abrigar seis ambulâncias de suporte básico, duas de suporte avançado (UTI Móvel), além de uma dupla de motolâncias. O local possui alojamento para os profissionais, depósito de material de limpeza, expurgo, almoxarifado e refeitório, dentre outros ambientes.

Confira onde ficam as bases e pontos de apoio do Samu:

Base Paralela – Dentro da UniJorge;
Base Paralela – Dentro da UniFTC;
Base Campus Cabula – Dentro da Faculdade Baiana de Medicina;
Base San Martin – Dentro da UPA San Martin;
Base Centenário – Dentro do Complexo Clementino Fraga (Quinto Centro);
Base Cidade Baixa – Dentro da UPA Santo Antônio;
Base Valéria – Dentro da UPA de Valéria;
Base Pituba – Dentro da Arena Aquática;
Base São Cristóvão – Dentro da UPA de São Cristóvão;
Base Periperi – Dentro da UPA Aldroaldo Albergaria;
Base Pau Miúdo – Dentro do Complexo de Saúde César de Araújo;
Base Itapuã – Dentro do ginásio poliesportivo- Estação Cidadania;
Base Cajazeiras – Dentro do Hospital Municipal de Salvador;
Base da Boca do Rio – Rua Elesbão do Carmo, 254, prox. antigo Centro de Convenções;
Ponto de Apoio – 12ºCS Alfredo Bureau, no Imbuí;
Ponto de Apoio – PA Dr. Rodrigo Argolo, no Arenoso.

Fonte: Correio