quinta-feira, 30 abr 2026

Eli Oliveira: Superação, solidariedade e a coragem de se jogar no Mundo

- Publicidade -
Banner Boulevard

Março é um mês de celebração da força, da resiliência e das conquistas das mulheres. E poucas histórias traduzem tão bem esse espírito quanto a de Eli Oliveira, professora de corte e costura, idealizadora do Projeto Peruca Solidária e, agora, uma viajante determinada a realizar um sonho de infância.

Natural de Garanhuns, Pernambuco, Eli é mãe de três filhos — Luiza, de 18 anos, Augusto, de 16, e Luana, de 10 — e construiu sua vida em Camaçari. Há quatro anos, recebeu o diagnóstico de câncer e, como muitas mulheres que passam por essa experiência, viu sua vida mudar completamente. Mas, em meio ao impacto da notícia, um gesto de generosidade deu início a um projeto que hoje transforma vidas: o Peruca Solidária.

Quando soube da doença, Eli pensou que talvez precisasse de uma peruca durante o tratamento. No entanto, uma de suas alunas, Angélica, teve uma ideia especial: cortar o próprio cabelo para que Eli fizesse sua peruca. Inspirada, Eli decidiu expandir essa iniciativa e passou a confeccionar perucas para outras mulheres em tratamento, permitindo que elas passassem pela transição com mais autoestima e dignidade. Hoje, mesmo longe de Camaçari, seu projeto continua funcionando, com uma equipe dedicada à confecção e doação de perucas.

Mas Eli não parou por aí. Desde criança, sonhava em viajar sem compromisso, explorando o mundo sem pressa. E em 2025, após muitas tentativas, finalmente conseguiu organizar sua vida para realizar esse desejo. Adaptou um carro pequeno com energia, bateria e inversor, e colocou o pé na estrada. Há mais de 30 dias longe de Camaçari, já passou por diversos estados e agora se prepara para entrar no Uruguai, dando início a um ano de descobertas, desafios e aprendizados.

Nesta entrevista para o Especial Março Mulher, Eli compartilha os desafios dessa nova fase, sua relação com a costura, a emoção de transformar vidas por meio do Peruca Solidária e como essa jornada tem sido um ato de liberdade, superação e autoconhecimento.

NOSSA METRÓPOLE – Eli, sua história é de muita resiliência e coragem. Quando você recebeu o diagnóstico de câncer, qual foi o primeiro pensamento que veio à sua mente?

ELI OLIVEIRA – Meu primeiro pensamento foi: minha fixa foi chamada e eu não conheci nem mesmo o Brasil, quanto mais o mundo kkkkk e comecei a programar essa viagem de 1 ano pelo menos.

NM- O Peruca Solidária surgiu a partir de um gesto de carinho e solidariedade. Como foi o processo de transformar essa iniciativa em um projeto que hoje ajuda tantas mulheres?

EO- No início pensei que fosse ser fácil já que era algo necessário para ajudar o próximo, mas lutei durante quase 2 anos implorando para que alguém me ensinasse o ofício da costura de cabelo e mesmo pagando algumas pessoas se recusaram, até que minha história chegou aos ouvidos de Alan Nunes um peruqueiro do Orixás Center e ele aceito e me deu um bom desconto, fiz 2rifas e consegui fazer o curso.

Peruca solidária

NM- Mesmo viajando, você conseguiu manter o projeto funcionando. Como é essa logística à distância?

EO-Hoje em dia recebo a ajuda de alguns profissionais espalhados pelo Brasil. Eles tecem o cabelo e mandam de volta para a ONG onde tem uma pessoa para montar as perucas.

NM- Você é professora de corte e costura. Como a costura se encaixa na sua vida hoje, especialmente durante essa jornada de viagens?

EO- Eu ando com uma máquina de costura no carro e, onde tenho oportunidade, vou consertando a roupa dos clientes a domicílio. Já costurei no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Barra Velha.

NM- Falando em viagens, esse sempre foi um sonho seu. Como surgiu essa vontade de explorar o mundo sem compromisso?

EO-Minha mãe me contava algumas histórias da minha infância kkkkk com 3 anos eu arrumei uma mochila com algumas roupas minhas e fui me despedir da minha mãe na cozinha dizendo que iria sair de casa, claro ela perguntou para onde eu iria e eu respondi que iria morar com minha tia Maria ela claro sorriu e não deixou kkkkk quando eu tinha mais ou menos 6 anos conheci o circo e me encantei pelo glamour das roupas (eu já queria ser costureira) e pela vida nômade de não ficar muito tempo em um só lugar. Pedi à minha mãe para ir morar no circo e, claro, mais uma vez fui impedida. Hoje dou boas risadas, mas na época chorei horrores.

NM- Você adaptou um carro pequeno para essa experiência. Como tem sido essa nova rotina de viver na estrada?

EO- Maravilhosa, há 4 anos comprei uma Kombi velha e tentei montar uma Kombi Home, mas a bichinha era tão velhinha que não aguentou muito, me frustrei, achando que não iria realizar meu sonho nunca. Até que tomei coragem de fazer a viagem de moto, me habilitei e comprei uma moto para desespero de todos. Luiz, o pai dos meus filhos, ficou sabendo e me ofereceu o carro para eu viajar. É assim que fiz, comprei uma bateria, já tinha o inversor e coloquei energia na mala do carro para carregar celular, notebook e também cozinhar na panela elétrica. Durmo no banco de trás, sou baixinha e sempre dormi encolhida. Tomo banho nos postos de gasolina e pode acreditar, não sinto falta de uma casa.

NM-Quais foram os maiores desafios até agora nesse primeiro mês de viagem?

EO- O primeiro foi sair de casa em Minas Gerais e descobrir que a documentação era antiga e eu teria que voltar para Bahia para colocar o carro no meu nome, porque em outros países eu só posso dirigir um carro se ele estiver no meu nome ou se o dono do documento me der uma autorização para dirigir o carro dele, me chateei, mas voltei e fiz a transferência, gastei horrores kkkkk, mas transferi.

NM- Já tem algum destino ou experiência que te marcou mais até agora?

EO- Gramado, eu sou suspeita em falar porque desde a infância que sou apaixonada por casas feitas de madeiras e no estilo europeu. Tanto é que construí uma casa com pallets para me sentir na Europa. Dirigi bem devagarinho pelo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul para curtir as paisagens e as construções magníficas de cada lugar.

NM- Como foi a decisão de deixar seus filhos com o pai durante esse período? Foi um processo difícil para vocês?

EO- — Só não foi tão difícil porque foi resolvida há dois anos, então todo mundo foi se acostumando aos poucos. Sempre criei meus filhos para serem independentes desde pequenos, matamos a saudade por ligações de vídeos e a distância fez a gente declarar muito mais nosso amor. Até falei com minha caçula ontem sobre a falta que faz ela dormir enroscada comigo.

NM- Durante sua trajetória, você já passou por muitas mudanças e desafios. Como enxerga sua própria evolução ao longo dos anos?

EO- A evolução é extrema, hoje me considero mais humana, solidária, aprendi a sorrir na força do ódio kkkk e depois que percebi que era bom, hoje tem um sorriso solto sem precisar forçar. Consigo ser uma terapeuta para minhas amigas e até para desconhecidas, sempre tentando ajudar, nem que seja fazendo a ponte entre as pessoas. Já trabalhei por 40 anos e hoje me sinto totalmente realizada, me formei, casei, tive filhos, me profissionalizei e hoje o simples me encanta e me completa.

NM- Além do trabalho e da viagem, como você cuida de si mesma? O que te mantém forte emocionalmente?

EO- Não é fácil se manter forte, às vezes me abato e choro. Mas agradeço a Deus cada oportunidade de continuar viva e fazendo o bem. Por onde passei, encontrei com pessoas que precisavam da minha presença e eu da presença delas. Deus une propósitos e me leva a parar o carro nos lugares certos. Em Barra Velha, dirigi por alguns minutos e Deus me levou a parar o carro na porta de um anjo, a artista plástica Marilda, que me acolheu com uma hospitalidade incrível. Não dormi porque não quis e, de quebra, ainda ganhei um almoço na casa da amiga dela. O que me fez acelerar meu sonho de sair mesmo com o carro pequeno, foi um sangramento no ano retrasado e a suspeita de um câncer no intestino, mas Deus é maravilhoso e nunca mais se repetiu, foi alarme falso.

NM- Você acredita que essa experiência pode inspirar outras mulheres a buscarem seus sonhos, independente das circunstâncias?

EO-Já escutei vários relatos, inclusive quando adicionei a habilitação de moto, eu influenciei mais 4 a se habilitarem para realizarem seus sonhos. Tenho várias amigas e até seguidoras que nunca vi dizendo que vão me acompanhar durante todo o ano para tomarem coragem de fazer pelo menos 10% kkkk.

NM- Para finalizar, qual música rege sua vida e por quê?

EO- Epitáfio dos Titãs. Porque a sociedade nos cobra sempre o sucesso nas redes sociais, no financeiro, no amor, que a gente esquece de realmente viver. Eu estou conseguindo admirar cada nascer do sol e cada entardecer com uma mistura de emoções nunca sentidas. Pela distância, talvez, estou declarando mais o meu amor pelos meus filhos, até pelo ex-marido kkkk que liga todos os dias para saber se estou bem. A vida não é complicada, nós é que complicamos sempre querendo mais e mais. Esse copo nunca vai encher, e a sensação de que sempre está faltando algo faz a gente continuar correndo atrás do rabo igual cachorro, e nunca vai alcançar.

 

Redação Nossa Metrópole / Vilsana Almeida

Compartilhar:

Destaques

Mais Notícias
Notícias

Projeto da Braskem que capacita mulheres abre inscrições para vagas gratuitas em Camaçari

As inscrições para a quarta edição do projeto Empreendedoras...

A Feira de Camaçari terá horário especial no feriado de 1º de maio

A Feira de Camaçari funcionará  em horário especial nesta...

Boulevard Camaçari tem funcionamento especial no feriado de 1º de maio

Empreendimento manterá opções de lazer e alimentação abertas no...