quinta-feira, 23 abr 2026

Entenda a prática de automutilação que atinge 20% de adolescentes no Brasil

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Biologicamente a adolescência é um momento de transição difícil. É uma fase onde acontecem muitas mudanças que afetam o corpo, sexo, a área psíquica e as relações sociais. Fase onde acontecem muitas descobertas e novas experiências. Mas, também ocorrem as incertezas, inseguranças e revoltas.  Até certo ponto, tudo isso pode ser considerado natural, mas é preciso verificar se a rebeldia por normas e regras vem sendo acompanhada de comportamentos de muito isolamento, fator que pode levar a uma série de problemas, dentre eles, a prática de automutilação, transtorno que já atinge 20% dos jovens brasileiros.

 


Os casos são cada vez mais distintos e tornaram-se uma das principais preocupações entre os especialistas, pais e professores.  O tema vem sendo cada vez mais discutido e a mídia tem tido um importante papel nesse sentido, fato que tem levado as famílias aos consultórios de psicologia, preocupados com os comportamentos dos filhos em relação a provocarem ferimentos na própria carne. “Trata-se de um momento extremamente delicado, quando a participação e compreensão da família são fundamentais”, destaca a psicóloga Carol Assemany.

 

 

A profissional conta que cotidianamente atende pacientes (adolescentes) com casos de automutilação. Segundo ela, de um modo geral, os adolescentes que apresentam comportamento autolesivo podem ter: dificuldade de expressar emoções; impulsividade, ansiedade e raiva elevadas; baixa autoestima; insegurança; ter sofrido negligência, bullying, abuso sexual, violência familiar; ou sofrer de algum transtorno psiquiátrico como Transtorno de Personalidade Bordeline, Depressão, Transtornos Alimentares, entre outros. Muitos alegam se sentirem abandonados, rejeitados ou culpados e, por isso, usariam os cortes com forma de esquecer e de obter alívio imediato.
Cortar a própria carne para aliviar a dor interna pode até parecer metáfora, mas na prática, é o que muitos jovens têm vivido em todo mundo. É o caso de Mateus (nome fictício).  “Tenho 17 anos, meu primeiro corte foi com 15 anos. Se eu soubesse que seria tão vicioso jamais havia feito o primeiro. Sempre me corto por conflitos familiares. Meu pai é separado da minha mãe, ela casou outra vez com o pai do meu irmão. A gente não se entende, ele me trata como um estranho, nem fala comigo”, sobre os cortes ele acrescenta: “Sim. Eu quero parar. Quem sabe um dia”.

 

Em conversa com nossa reportagem, a professora da rede pública, Nilzelia Nascimento, conta que os casos são muito corriqueiros. “Já acompanho adolescentes com esse problema há cerca de três anos, ou seja, não estamos falando de algo tão recente”.

 

Na maioria das vezes, quando percebemos algo de diferente, tentamos dialogar com a família, fazemos os devidos encaminhamentos, mas existem muitas barreiras e o processo não é fácil.

 

Segundo a professora, em muitos casos, não existe a devida atenção familiar. “A gente sabe que a vida está muito corrida, mas está faltando família na vida dos adolescentes, falta atenção”, reforça a educadora.

 

Motivos e sensações
Pequenos cortes pelo corpo e a tentativa de escondê-los dos pais são os principais sintomas da automutilação, ou cutting, que é reconhecido como um transtorno mental desde 2013. No Brasil, não existem estudos epidemiológicos sobre a automutilação, mas pesquisas feitas nos Estados Unidos mostram que a prática está ficando mais frequente na última década.

 

O cutting não tem como objetivo chamar a atenção, mas é usado como um escape para aliviar a tensão. Quem o pratica não quer que os pais saibam, porque quer continuar usando esse “analgésico” para dor emocional. Segundo Assemany, quanto mais cedo o transtorno for tratado, maiores são as chances de a prática não se repetir.

 

As principais características do transtorno, que normalmente começa em torno dos 13 anos de idade, são pequenos cortes superficiais feitos pelo próprio adolescente, em locais do corpo que possam ficar escondidos sob a roupa, sendo os braços os locais mais comuns.

 

O que fazer ao perceber que seu filho está machucando a si mesmo?
Esse é um dilema vivenciado por muitos pais na atualidade. É importante ressaltar que o fenômeno – um transtorno mental manifestado em pequenos cortes pelo corpo – é diferente da tentativa de suicídio, mas a automutilação deve ser sempre tratada como uma demonstração de tristeza.

 

Na opinião da psicóloga Carol Assemany, o caminho é o diálogo. Procurar ouvir o adolescente evitando o julgamento pode ser um passo importante. “Mostre apoio, agradeça a confiança se ele te contar. Consultar um psicólogo e um psiquiatra, entender as recaídas, pois se cortar pode funcionar com uma espécie de vício, e recaídas fazem parte do tratamento. Uma rede de apoio deve ser criada e mantida entre escola, família, igreja, associação de moradores, entre outros”.

 

Para os jovens, ela orienta. “Se você está pensando em começar a fazer isso, por favor, considera a possibilidade de não começar. E se você está pensando em parar, então, busque ajuda, há solução sim e um futuro promissor a sua espera. Muito conseguiram e você também pode”.

 

Influência das Redes Sociais
Com a “epidemia” da prática de automutilação e o envolvido cada vez mais intenso da juventude com a internet, fica a incógnita. As Redes Sociais são um instrumento de disseminação desse distúrbio?

Através de páginas do Facebook ou em grupos do WhatsApp, muitos adolescentes compartilham fotos dos ferimentos e experiências. Os adeptos da autolesão querem encontrar outras pessoas como eles e falar sobre isso. É uma oportunidade para contornar o tabu. Para os que costumam se automutilar, é importante encontrar outras pessoas que fazem o mesmo e achar as normas da comunidade. No YouTube, também é possível encontrar uma série de vídeos sobre o tema. Ou seja, existe um turbilhão de vídeos circulando na internet de jovens que se mutilam.

 

Os especialistas orientam que os pais tenham maior controle sobre o que os filhos veem na internet, conhecer mais seus amigos e estar atento a qualquer variação no comportamento dos filhos.

 

A opinião de Assemany é que a internet pode tanto ser fonte de auxílio no processo de superação quanto de indução e manutenção do comportamento autolesivo. Postar os cortes pode ser um pedido de socorro, e há exemplo que possibilita o apoio a quem precisa (adolescente e familiares), como é o caso do canal do You Tube “Você não está sozinho” e o site http://comoserforte.tumblr.com/projetoborboleta.

 

Meninas são as maiores vítimas
Um estudo publicado na revista de medicina The Lancet aponta que as meninas se automutilam mais do que os meninos. A pesquisa foi realizada na Austrália, entre agosto de 1992 e agosto de 2008. A automutilação é um distúrbio de comportamento que faz com que o paciente agrida o próprio corpo ao sentir profunda tristeza, raiva, nervosismo ou viver um trauma.

Durante a adolescência, os incidentes de automutilação foram associados de maneira independente com sintomas de depressão e ansiedade, comportamento antissocial, de alto risco de uso de álcool, drogas e cigarro.

A pesquisa afirma que a detecção precoce e tratamento dos transtornos mentais comuns durante a adolescência podem constituir um componente importante e até então não reconhecido de prevenção do suicídio em adultos jovens. O número assusta quando vemos que um em cada 12 jovens se mutila, com agressões como cortes, queimaduras e batidas do corpo contra a parede. Para aqueles que se autoflagelam, a prática é uma tentativa de aliviar sensações como angústia, raiva ou frustração. O problema é mais comum entre mulheres de 15 a 24 anos.

 

Baleia Azul
O jogo da “baleia azul”, série de 50 desafios cujo objetivo final do jogador é acabar com a própria vida, virou alvo destaque em toda a mídia, após uma mãe de um menino de 12 anos denunciar que o garoto foi convidado a participar da série de desafios. A polícia investiga ainda outro caso de uma vítima que teria relação com o jogo.

 

A origem do jogo que incentiva o suicídio não é conhecida, mas os primeiros relatos teriam surgido na Rússia. Em fevereiro, duas adolescentes se jogaram do alto de um prédio de 14 andares em Irkutsk, na região da Sibéria. Segundo investigações, Yulia Konstantinova, de 15 anos, e Veronika Volkova, de 16, se suicidaram depois de percorrer as 50 tarefas enviadas. Em sua página no Facebook, Yulia tinha compartilhado a imagem de uma baleia azul.

 

Que desafios são estes?
Apesar de alguns desafios serem simples ou até inócuos, a maior parte deles está relacionada com a automutilação. O primeiro desafio é: “Com uma navalha, escreve ‘F57’ na mão e envia uma fotografia para o curador.” Um dos desafios mais simples pede que seja partilhado nas páginas da rede social russa VKontakte (VK) a hashtag “#i_am_whale”; outro pede que se passe o dia sem falar com ninguém e, noutra, é sugerido que encontre alguém que também esteja a participar no jogo. Já vários outros desafios pedem que a pessoa se mutile repetidamente ou que suba a telhados ou pontes para se sentar na borda e, por fim, que tire a própria vida. Confira, abaixo, alguns dos desafios:
Ver filmes de terror ou psicodélicos às 04h20 da manhã. Têm de ser filmes indicados pelo curador que depois vai fazer perguntas para confirmar se você viu mesmo.
Cortar o teu lábio.
Furar mão com uma agulha muitas vezes.
Reunião com uma baleia azul que o curador vai indicar.
O curador vai indicar a data da tua morte e vai aceitar.
Acorda as 04h20 e vai a um caminho-de-ferro.
Tirar a própria vida.

 

Redação Nossa Metrópole

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