Filha de Camaçari e de origem humilde, dona Gaudência foi a primeira mulher escrevente da cidade, nomeada aos 18 anos, em 1956.
Sua principal função era registrar nascimentos, casamentos e óbitos — momentos marcantes que, com certeza, envolvem alguém que você conhece e que foi registrado por ela.
No embalo das comemorações pelos 267 anos de Camaçari, Gaudência é lembrada como uma figura importante na história do município e, claro, não poderia ficar de fora do nosso especial.
Confira a entrevista
1. Dona Gaudência, a senhora pode me contar um pouco sobre quem é e como começou sua trajetória no cartório de Camaçari?
Sou filha de Camaçari, de origem humilde. Perdi meu pai biológico, Felipe, ainda pequena, mas fui criada com muito amor e esforço por minha mãe, Francisca, e pelo meu pai de coração, João. Minha vida mudou quando recebi de minha madrinha, Amélia Montenegro De Almeida, a oportunidade de ser aprendiz do cartório. Posteriormente, aos 18 anos, me tornei Escrevente e, em 1956, fui nomeada Oficial de Registro Civil das pessoas naturais de Camaçari.
Naquele tempo os cartórios eram particulares, portanto, o cartório funcionava na casa de minha madrinha, mas depois passou para a minha residência, na Avenida Francisco Drumond (antiga Rua do Hotel Lima), somente mais tarde, quando os cartórios foram incorporados ao poder público, é que fui reconhecida Oficialmente pelo Estado e nomeada como Servidora do Tribunal de Justiça do Estado. Foram muitos anos de dedicação, e foi dessa bênção que tirei o sustento para criar meus 10 filhos, com meu marido, José Pereira da Cruz, que também era Servidor Estadual como Policial Militar.
2. Quais eram exatamente as funções que a senhora exercia como escrivã?
Minha principal função era registrar a vida das pessoas, os nascimentos, os casamentos e os óbitos. Eram momentos marcantes para as famílias, e eu tinha o dever de transformá-los em registros oficiais. Era um trabalho que exigia responsabilidade, mas que eu fazia com muito amor e atenção.
3. Como a senhora se sente ao saber que registrou e casou tantas pessoas da cidade ao longo dos anos?
Eu me sinto profundamente realizada e feliz. Saber que participei da vida de tantas pessoas de Camaçari é motivo de orgulho. Foram inúmeras famílias que passaram pelo cartório, cada uma com sua história, e eu estava lá para dar Fé Pública e registrar esses momentos. O cartório não era apenas um ofício, era uma parte de mim, uma forma de servir à comunidade. Hoje, na idade em que estou, quando encontro pessoas que me reconhecem e contam que fui eu quem registrou seu nascimento ou celebrou seu casamento, sinto que deixei uma marca bonita na história da cidade. É uma honra ter contribuído com dignidade e amor para a memória do nosso povo.
Redação Nossa Metrópole/ Vilsana Almeida

