O famoso ditado popular “quem dança seus males espanta” faz todo o sentido no combate à depressão. A dança do ventre, por exemplo, conduz a mulher pelo caminho do autoconhecimento, ampliando assim a consciência de si mesma e consequentemente contribuindo com a elevação da autoestima e da confiança. Traz também diversos benefícios à saúde, por trabalhar todas as partes do corpo, da ponta dos pés ao topo da cabeça, o que exige um bom trabalho postural e de equilíbrio.
Foi através da dança do ventre que a dançarina e professora Ângela Cheirosa, 44 anos, mãe de um jovem de 18 anos, superou um estágio avançado de depressão após a morte do marido em um grave acidente.
Atualmente, Ângela lidera um importante projeto social denominado, Flor de Lótus, que atua em comunidades carentes. O objetivo é levar a dança do ventre para um número cada vez maior de mulheres. “Se engana quem pensa que a dança do ventre é procurada apenas por mulheres mais novas, com corpos esculturais. Eu procuro levar a minha história como exemplo e ajudar as mulheres a saírem do estágio depressivo e a entenderem que elas também podem se libertar e ser feliz com a dança. Os resultados são lindos e me emociona a cada dia”, conta Ângela.
De acordo com a professora, esse tipo de informação tem comoçado a chegar à sociedade e, tem sido vez mais comum, à procura da dança como aliada para ajudar na cura da doença.
Em um mergulho pela história de Ângela Cheirosa, você pode conhecer os benefícios da dança do ventre e como a prática pode ajudar no seu equilíbrio físico e mental. Confira entrevista!
NM – A dança do ventre surgiu em sua vida após um estágio depressivo. Conta para a gente essa história?
AC – Sim. A dança do ventre surgiu em minha vida em um momento muito difícil. Eu estava magoada, decepciona com a vida, mas a palavra deprimida surgiu em minha vida até eu descobrir a cura. Até descobrir a dança do ventre eu não sabia que estava com depressão. Eu acredito que depressão é o mal do século, as pessoas sofrem muito e não se dão conta de que sofrimento é esse. Foi o que aconteceu comigo.
Eu fiquei viúva com 30 anos, passei três anos depressiva, mas não tinha noção disso. Um determinado dia descobrir a dança do ventre em uma aula de yoga. Foi amor à primeira vista, quando a primeira moedinha balançou (risos), meu coração balançou junto. De lá para cá nunca mais parei.
NM – A gente percebe que você é apaixonada pelo que faz e literalmente vive a dança. Sempre foi assim?
AC – A principio, quando comecei a dançar foi com o intuito de me curar. De cara percebi que a atividade estava me trazendo de volta à vida. Me despertou a ser mulher, me trouxe de volta ao pensar em mim no meu corpo. De uma forma muito democrática, a forma como me foi apresentada a dança do ventre, me fez perceber que além de ser uma arte, uma atividade física, é extremamente curativa. A partir daí, eu entendi que servia para mim e servia para qualquer mulher.
NM – A dança do ventre sempre foi vista como uma arte voltada para mulheres com corpos esculturais. Em algum momento você teve receio de se jogar na dança?
AC – Não. Apesar do preconceito que existe sim, do “padrão” que foi pré-estabelecido pela mídia, uma estética de figurino de corpo, de cabelo, de unha de tudo. Mas isso não foi transferido para mim. A partir do momento que eu me entendi como apta a praticar e que eu poderia fazer e fazer bem feito e decidir dizer aos quatro cantos. “Gente, não é como está sendo posto. É para todo mundo sim! É para qualquer mulher”. É por isso que Camaçari e o Brasil inteiro têm olhado para a gente de uma forma muito carinhosa, e o meu corpão, meu cabelo, minha cor contribuiu muito para isso.
NM – A dança do ventre entrou de vez na sua vida e se tornou profissão. O projeto cresceu e foi parar até na rede globo, no programa de Fátima Bernardes. Você se sente totalmente realizada?
AC – Para você ter uma ideia, eu era uma mulher de 50kg e com a depressão fui para 100 kg, então eu já não conhecia meu corpo. Me encontrei totalmente, se tornou minha morada. É onde eu habito. Não despertou em mim só a questão estética, mas o se amar, se querer bem e aí eu senti a necessidade de multiplicar tudo que eu tinha aprendido, tudo que eu tinha sentido.
Sou realiada por levar para várias outras mulheres essa experiência, por meio do projeto Flor de Lótus e por ter tido a oportunidade de levar essa mensagem para todo o Brasil pelo programa de Fátima Bernardes.
Também tenho um selo de qualidade de dança oriental que me habilita a da aula em qualquer lugar, a participar dos maiores eventos do país. A mídia nacional me descobriu, as professoras nacionais, o que nos deixa muito feliz e realizada.
NM – E depois da Rede Globo? O sucesso aumentou?
AC – Foi uma revolução. Apesar de muita gente não ter conhecimento, milhares de mulheres no Brasil praticam dança do ventre. É um universo.
Eu escrevi para a globo de madrugada, no dia seguinte pela manhã já estavam me ligando. Uma semana depois eu já estava lá ao vivo. Foi incrível. Eu não sabia que era a pauta principal e quando cheguei lá todos já sabiam da nosso história. Fui recebida com muita dignidade e carinho.
NM – Como o Flor de Lótus atua?
AC – É projeto social que está no sexto ano. Começamos no bairro Buri Satuba. Trata-se de um projeto que leva para as mulheres empoderamento por meio da dança do ventre. Nós levamos dança, autoestima, amizade, autoconhecimento, autoaceitação. Não adianta você querer que outro de aceite, que o outro te goste se você não faz isso para você mesma. É dançar com consciência. É levar arte, cultura e informação para onde naturalmente não chegaria.
NM – Hoje você consegue alcançar quantas comunidades?
AC – Atualmente estamos no Buri Satuba, na Gleba E e no Phoc. São mulheres em situação de vulnerabilidade, violência, em situações muito delicadas. O grande diferencial é que o projeto vai até pessoas que precisam, que de forma geral não ateriam acesso. Mas quando chegam lá percebem que é para todos e se empoderam, se amam e aprendem a dançar e com a dança vêm às amizades, os benefícios físicos psicológicos.
NM – O que trava o projeto? Seria possível expandir?
AC – O que trava é que o projeto é mantido exclusivamente por mim. Temos parceria com as associações de moradores, mas também não é uma situação fácil. A gente precisa de apoio governamental ou privado para que assim pudéssemos levar para um número maior de comunidades.
Falta na verdade um investimento para estruturar de forma mais consistente o projeto. A gente faz a nossa parte, mas tudo de forma limitada.
NM – E esse nome lindo, Ângela Cheirosa, como surgiu?
AC – Essa é uma história muito legal. A verdade é que era um apelido carinhoso. Eu chamava meu esposo de cheiroso e ela me chamava de cheirosa. Os amigos foram entrando na jogada e começaram a me chamar de cheirosa também. Quando entrei nas redes sociais acabei adotando o Ângela Cheirosa e se transformou em nome artístico.
NM – A gente percebe que você é uma pessoa que se preocupa muito com o contexto social. De onde vem essa força?
AC – Acredito que esteja relacionada com a minha religião. Sou espírita e e segundo o espiritismo fora da caridade não há salvação. Todas as vezes que eu olho para alguém e que eu tenho a oportunidade de ajudar, penso que na verdade eu estou sendo ajudada. É minha oportunidade de dá um paço a mais perto de Deus. É uma oportunidade de me melhorar em quanto ser humano.
NM – Onde você quer chegar com a dança do ventre?
AC – Eu quero poder falar sobre a dança do ventre de uma forma que todos entendam. Quero poder transformar Camaçari em um polo da dança do ventre. Acredito a dança do ventre nas escolas públicas, nos eventos culturais da cidade de forma permanente.
Para ajudar o projeto Flor de Lótus entre em contato com Ângela Cheirosa pelo telefone: 71 9 8862 – 1844
Por Fabiana Monte





