Há pouco menos de um mês para o início do Carnaval, por onde quer que seja, Salvador já respira a folia: a montagem dos camarotes na orla, as fantasias com glitter nas vitrines, e na boca do povo o burburinho sobre qual a música do ano.
Paralelo a tudo isso, o mercado de aluguel de imóvel por temporada aquece à medida que a festa se aproxima. A locação para o período de oito dias de Momo – dentro ou muito perto dos circuitos – chega a custar até R$ 40 mil, conforme apurou a reportagem.
Representante do Conselho Regional de Corretores de Imóveis na Bahia (Creci), e especialista no assunto aluguel por temporada, Ederson Galeno lembra que foram dois anos sem Carnaval e que todos os mercados relacionados à festa registram grande demanda nesta retomada, especialmente este segmento, diz.
Ainda de acordo com Galeno, esse hiato foi suficiente para que o consumidor se habituasse a plataformas digitais, como o Airbnb, que agora chega forte no Carnaval, ele conta, (com proprietários) dividindo o terreno com as imobiliárias.
No aplicativo é possível encontrar quarto-e-sala próximo a Ondina-Barra, como no Rio Vermelho, por exemplo, por cerca de R$ 3,2 mil os oito dias de festa para até quatro hóspedes. Mas, para os mais exigentes, tem também opções de alto luxo, em Ondina, por R$ 41 mil para seis pessoas no mesmo período. A diária por hóspede nesses casos vão de R$ 100 a R$ 850, respectivamente.
Galeno explica que o raciocínio para quem busca um imóvel para locação é justamente a comparação com os preços dos hotéis. “Quando você divide pela quantidade de pessoas, acaba saindo mais em conta”, afirma.
Apesar disso, o conselheiro do Creci acredita que é possível encontrar preços menores fora das plataformas. Isso porque, segundo ele, o próprio aplicativo faz o ajuste dos valores baseado na oferta e na demanda (via algorítimo).
“Como tem mais pessoas procurando e poucas unidades disponíveis, o indexador da ferramenta vai sugerir um preço maior. Isso pode ser bom para o proprietário, mas para o locatário pode ser mais vantajoso recorrer a um corretor ou imobiliária”, aconselha.
Ainda assim, segundo a corretora de imóveis Bárbara Neves, o primeiro contato daqueles que buscam um imóvel tem sido através dessas plataformas de aluguel de temporada. De acordo com ela, a procura se concentra na orla da Barra e da Ondina –, por onde passa o chamado circuito Dodô –, e na região do Corredor da Vitória, próxima ao circuito Osmar. Pelo Campo Grande, historicamente, o interesse é pequeno.
Ainda segundo a corretora, a média de preços tem sido de R$ 25 mil o aluguel para os oito dias de festa. A maioria dos locatários são visitantes de outros estados, como São Paulo, Minas Gerais e outras praças do Nordeste, revela Bárbara.
Também corretora, Aida Andrade revela estar animada com o mercado este ano. Ela fala, no entanto, que só percebeu o aquecimento do setor nas últimas semanas. A primeira procura aconteceu em dezembro, diferentemente do passado, quando costumava ocorrer ainda no primeiro semestre do ano anterior.
Locatários exigentes
O movimento pode ter sido tardio, mas veio com bons números para ela e os proprietários. Ela aponta um crescimento de cerca de 40% nos valores dos pacotes para 8 dias de festa, quando comparado ao último Carnaval, em 2020.
“Se no último Carnaval eu tinha um apartamento de luxo na Barra para oito pessoas por R$ 25 mil, neste ano, o proprietário está pedindo R$ 35 mil. Acredito que seja porque tudo aumentou nos últimos anos. E os foliões estão animados, estão pagando”, conta.
Aida tem ainda 13 imóveis disponíveis para locação nos dias do Carnaval. Ela espera ter mais até lá, mas já fechou quatro negócios. O mais em conta deles foi um quarto-e-sala por R$ 9,2 mil na Barra. Ela conta que os locatários estão mais exigentes. Mesmo sendo para poucos dias, exigem infraestrutura e conforto.
“Querem mais perto do circuito. E geralmente quanto mais perto, mais elevado é o preço. Mas buscam também um lugar com infraestrutura, piscina, academia, acesso à praia. A ideia deles é sair à noite para a festa, mas ter também facilidades para curtir o dia”, conta.
Robert Alex Silva é proprietário de imóveis localizados em Ondina e há, pelo menos dez anos, aluga por temporada no período do Carnaval. Das duas coberturas que tinha disponíveis, resta apenas uma. O proprietário já fechou um contrato por R$ 14 mil para os dias da festa. O apartamento disponível mais amplo está saindo por R$ 23 mil. Ambos comportam até 12 pessoas e têm vista para o camarote Salvador.
Segundo Silva, devido à localização privilegiada, a procura pelos apartamentos geralmente começa logo que o Carnaval acaba, já para o ano seguinte.
“Desta vez, foi um pouco diferente, pois especulava-se onde seria a festa, se iria existir um novo circuito na Boca do Rio, isso fez com que muitas pessoas adiassem os planos. Mas assim que veio a confirmação, o meu WhatsApp bombou de interessados”, afirma.
Regras quanto ao uso
Carnaval não é um momento comum na cidade e principalmente nesses empreendimentos dentro e no entorno do circuito. Por isso, a corretora chama atenção para especificidades do aluguel por temporada neste período. Ela lembra que alguns condomínios impõem regras nos dias da festa, que devem ser cumpridas inclusive pelos locatários.
“Tem condomínio que não abre a piscina, tem outros que entregam uma quantidade limite de pulseiras por apartamento e determina que só pode usar as áreas comuns quem tiver a pulseira. Tem um que não permite a entrada de visitantes. Outros têm uma espécie de camarote na área comum e também só permitem a entrada de uma quantidade definida por apartamento. Tudo isso deve ser observado e especificado no contrato”, explica Aida.
Outra especificidade do aluguel por temporada é o pagamento antecipado. Isso, aliado à empolgação do momento e ao perfil menos experiente do público que busca um imóvel para curtir o Carnaval, facilita a ocorrência de golpes, segundo o conselheiro do Creci.
Para não cair em golpes, a orientação de Galeno é, antes de tudo, dar preferência às transações mediadas por um corretor credenciado. “Em negócios fechados por plataformas, teoricamente você tem o respaldo dela, que já deve ter conferido se quem está negociando é realmente o dono do imóvel. Mas na hora de resolver algum problema, em um momento que geralmente você quer curtir, você não terá uma pessoa especialista nisso”, pontua.
Outras dicas do conselheiro do Creci são tentar checar se a propriedade é realmente de quem está alugando, conferir o endereço no Google e principalmente ficar atento a negócios que parecem muito vantajosos. “Os golpistas costumam pegar as pessoas nas suas fragilidades. Preços abaixo do mercado, condições facilitadas, como por exemplo, só pague 50% antecipado. Tudo isso pode ser indicativo de que algo não está certo”, orienta.
Fonte: A Tarde


