Entre tantas cores dedicadas ao mês de maio, tais como amarelo, roxo e laranja, você já ouviu falar sobre o maio furta-cor? Provavelmente não. Maio furta-cor é uma campanha fundada em 2021, sem fins lucrativos, com objetivo de sensibilizar sobre a saúde mental materna.
Para falar sobre este assunto, convidamos Geiza Dantas, Psicóloga CRP 03/27086, ela é representante do maio furta-cor em Dias d’Ávila, Camaçari e Mata de são João, tem formação em Saúde Mental Perinatal e Desenvolvimento da Primeira Infância, Capacitação Saúde Mental Materna Capacitação Gravidez e Parentalidade na Adolescência.
É sobre a saúde mental materna e a campanha do maio Furta-Cor que iremos falar nesta matéria.
Por que maio furta cor?
Maio é o mês que se comemora o dia das mães, momento oportuno de discutir causas maternas. Furta-Cor é uma cor cuja tonalidade se altera conforme a luz que recebe, não tendo uma cor absoluta. No espectro da maternidade não é diferente, nele cabem todas as cores.
A mulher que quer ser mãe ou que já está no processo, ela deve dar uma atenção especial à saúde mental?
Sim. Se possível desde o começo da gestação ou até antes, a gestação é um período de muitas reorganizações Psíquicas, familiares, papéis sociais, socioeconômicas e profissionais. Os estudos da psicologia do desenvolvimento trazem que no ciclo vital da mulher, há três períodos críticos de transição que podem agravar condições prévias de saúde mental, sendo eles: a adolescência, a gravidez e o climatério. Um acompanhamento psicológico feito individualmente preferencialmente, mas que também pode acontecer em grupo conhecido como Pré-natal psicológico realizado por uma (o) Psicóloga (o) Perinatal/Obstétrico, é uma ferramenta atualmente utilizada para prevenção e promoção da saúde mental materna e parental envolvendo não só a mulher, mas quando possível, o pai e a rede de apoio dessa mulher.
Qual objetivo da Campanha Maio Furta Cor?
Nosso principal objetivo é tornar a pauta da saúde mental materna visibilidade em toda a sociedade, começando dentro das famílias, local em que há muito desconhecimento, julgamento e pouca importância, nos espaços acadêmicos, nas organizações privadas e públicas e principalmente no âmbito das políticas públicas. Sendo assim nosso objetivo tem 3 pontos principais:
- 1. Sensibilizar a população para a causa da saúde mental materna;
- 2. Promover ações de conscientização em saúde mental materna baseadas em evidências científicas
- 3. Estimular a construção de políticas públicas de saúde através de projetos de lei que institui o maio Furta-cor como estratégia de política pública de saúde para mulheres- mães.
Quais transtornos podem acometer a mulher na maternidade?
Precisamos dizer que há mulheres que engravidam já estando acometidas de transtornos, como Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), depressão, dependência química, transtornos alimentares entre outros. Essas necessitam de acampamento especializado, desde o pré-natal até depois do parto, pela possibilidade de continuidade ou agravamento desses quadros no puerpério. (Puerpério- é o período após o parto até que o organismo da mulher volte às condições normais (pré-gestação). No puerpério temos 3 transtornos que se apresentam com maior frequência, sendo o terceiro deles o menos comum.
- Baby Blues/Blues puerperal ou tristeza puerperal: É uma disforia puerperal, benigna, que se inicia em volta do 3.º dia de pós-parto e tende a passar por volta do 15.º dia de pós-parto. Ele chega ao pico ainda na primeira semana, e por volta do 10.º ou 12.º dia, começa a reduzir os sintomas. Acontece em cerca de 85% das mulheres, essa alteração emocional. Não tem tratamento e não precisa de medicação, é só esperar o período passar e a rede de apoio dessa puérpera ajudar essa mulher passar por esse período. O baby-blues (ou blues puerperal) não traz prejuízo funcional, ou seja, apesar do choro frequente e muitas vezes até mesmo inexplicado pela mulher, e a angústia, ela consegue fazer suas atividades rotineiras.
- 2. Depressão pós-parto (DPP): A depressão perinatal é classificada como uma depressão maior com especificador com início no periparto, pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), abordando os mesmos sintomas de uma depressão em qualquer fase da vida. No entanto, a depressão perinatal envolve, frequentemente, sentimentos ligados aos desafios da maternidade e de se ter um bebê em casa. Pode aparecer, por exemplo, 6 meses após o parto até 12 meses. A Depressão Perinatal é um transtorno depressivo que pode iniciar ainda na gestação, ter continuidade no puerpério, ou iniciar no puerpério. 20% das mulheres que apresentam o Baby blues podem ter DPP. Pesquisas realizadas pela OMS apontam que países de baixa e média renda, como o Brasil, chegam a apresentar de 25% a 30% de depressão pós-parto. A DPP é um dos fatores para desmame precoce, compromete o vínculo mãe-bebê e a capacidade dessa mãe de estimular o bebe, atrasando seu desenvolvimento cognitivo até 2 anos. Os sintomas mais comuns são: • Medo excessivo de prejudicar o bebê • Maior sentimento de culpa e desamparo pela família e cônjuge • Alta irritabilidade e impaciência com o núcleo familiar • Grande esforço nos cuidados básicos da criança • Tendência de isolamento e evitação • Libido baixa, mesmo após meses • Dificuldade em dormir, mesmo quando é possível • Sentimento de sobrecarga • Desconforto em relação ao bebê
- 3. Psicose Puerperal Esse quadro se caracteriza por comportamentos maternos que denotam repúdio total ao bebê, apatia, comprometimento do juízo de realidade, delírios e alucinações, geralmente relativos à criança, a mesma apresentam-se com sintomas intensos, a situação mais grave associado a esse transtorno é o infanticídio, apresentando sintomas como alucinações de comando ou delírios de possessão envolvendo o recém-nascido, sendo necessário tratamento imediato e intensivo e em algumas situações até mesmo a hospitalização da mãe, sendo apontado como mais rara, atingindo 1 a 2 mães em cada 1.000. Gostaria de ressaltar que a mulher que já faz uso de algum tipo de medicação para tratamento da sua saúde mental não deve de forma alguma parar sua medicação por conta própria, ela deve procurar imediatamente o psiquiatra que a acompanha, para que o mesmo possa ajustar a dose da medicação ou fazer quando necessário, alteração do psicofármaco usado pela paciente. Atualmente existem medicações que são seguras e podem ser utilizadas tanto na gestação quanto no período de amamentação, e não prejudicam esse período tão significativo na vida da mulher, dando condições que a mesma vivencie de forma ajustada essa fase.
Quais serviços são prestados para essas mulheres e onde elas podem encontrar ajuda?
Como dito antes, o Pré-natal Psicológico (PNP) é uma ferramenta usada por nós Psicólogas (os) obstétricas (os) sendo uma modalidade de atendimento direcionada para as famílias que estão vivenciando o ciclo gravídico-puerperal, ao contrário do pré-natal obstétrico, no PNP o foco são as transformações emocionais e sociais que a mulher vivencia e como podem afetar a saúde mental dela. O acompanhamento no Pré-natal psicológico visa fornecer apoio sócio emocional, informacional e instrucional. Se caracteriza por ser uma modalidade de atendimento psicoterápico e psicoeducativo com a proposta de empoderar a mulher no processo de transição para a parentalidade, acolhendo as emoções que surgem nesse período.
É importante ressaltar, que a participação da gestante no PNP pode acontecer independentemente de crises emocionais e que o desejo é o principal dispositivo para esse tipo de acompanhamento. A relação mãe-bebê-pai acontece num contexto de muita responsabilidade, seriedade, complexidade e dedicação, exigindo disponibilidade de tempo e preparação para o exercício da parentalidade. Em caso de suspeita de Depressão Perinatal (no caso de Gestantes) ou Depressão Pós-Parto (dos 30 a 40 dias após o parto até 1 ano do nascimento do bebê) procurar ajuda especializada sendo eles preferencialmente especializados na área Perinatal, uma Psicóloga Obstetra/Perinatal ou um Psiquiatra para um diagnóstico conclusivo, e assim se dá o início ao tratamento adequado.
No caso do SUS, hoje o principal local de ajuda é o CAPS, sendo essa mulher acolhida e encaminhada para o tratamento adequado. Sonhamos com um futuro que existam políticas públicas voltadas exclusivamente para esse tipo de atendimento. Acreditamos que é possível construir uma sociedade mais saudável começando desde o ventre, ressalta Geiza.
Vale lembrar que o projeto nasceu em 2020 na porta de uma creche, pelas idealizadoras Nicole Cristino (Psicóloga Clínica e Perinatal), e por Patrícia Piper (Médica psiquiatra e psicoterapeuta com atuação na perinatalidade) na cidade de Curitiba.
Saúde Mental Materna Importa
Se importe com a mãe.
Assuma essa causa.
Por: Vilsana Almeida ♥




