O otimismo tomou conta dos indicadores econômicos da Bahia projetados para o ano de 2025. Os anos de ouro da indústria, que pretende voltar com gás à década de 70, possibilitaram que o estado, que é a 7ª maior economia do Brasil, sentisse os vívidos 2,6% de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado.
Para este ano, entretanto, a expectativa da pujança industrial baiana não foi lá a das melhores. Apesar disso, setores fundamentais do expansionismo baiano devem encorajar confiança no estado.
Segundo dados recentes da Federação de Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), a economia baiana deve crescer 1,4% em 2026, impulsionada pela consolidação do polo automotivo em Camaçari e pela expansão de serviços em Salvador.
Apesar do cenário marcado com conflitos entre potências bélicas no Irã, incertezas geopolíticas, tensões comerciais e políticas protecionistas, que já influenciam a balança comercial baiana, a volatilidade dos preços de combustíveis e a pressão inflacionária do país, o ano de 2026 espera crescimento episódico.
“A diversidade da base produtiva, a força da indústria regional e os investimentos em infraestrutura e novos empreendimentos mantêm o estado em posição estratégica para retomar um crescimento mais robusto quando as condições econômicas forem mais favoráveis”, aponta o sistema Fieb em perspectiva para 2026.
O setor automotivo está entre os segmentos econômicos que devem ser seguidos de bons números neste ano. Esta perspectiva está ligada ao início das atividades da BYD em Camaçari que já gera impactos positivos na empregabilidade no estado.
A gigante chinesa, que iniciou as atividades em outubro de 2025, já conta com quase 4 mil colaboradores diretos de brasileiros na unidade e projeta superar 6 mil empregos diretos nos próximos meses. Até o final deste ano, o complexo quer ter 10 mil trabalhadores brasileiros, através de contratação direta e terceirizada.
O efeito BYD e a cadeia de suprimentos
A fábrica da BYD ocupa uma área de 4,65 milhões de metros quadrados, em Camaçari, região metropolitana de Salvador, o equivalente a 645 campos de futebol. É o maior complexo industrial da companhia fora da China. A capacidade inicial de produção é de 150 mil veículos/ano, com meta de chegar a até 600 mil veículos/ano quando o projeto estiver completo.
A principal atividade da empresa e essencial motor de contratação é na montagem final de automóveis. Logo em seguida está a de montagem de baterias e operações de motores e autopeças. Os próximos passos de contratação para a empresa devem seguir os avanços das próximas fases industriais da fábrica, incluindo a entrada em operação das futuras linhas de soldagem, estamparia e pintura, previstas para este ano.
A produção do BYD Dolphin Mini, o sedã BYD King e o SUV BYD Song Pro, cujos modelos requerem peças únicas, serviços e manutenções especializadas, dilatam a cadeia produtiva industrial automotiva do estado e contribue para o impulsionamento de diversos setores industriais na região.
Até o momento, a rede conta com mais 400 fornecedores homologados, cujos segmentos estão voltados a:
- Autopeças;
- Logística;
- Tecnologia.
A fábrica chinesa destaca o avanço da nacionalização de componentes, através da priorização de fornecedores próximos e incentivo à instalação ou expansão de parceiros industriais. Até 2027, a empresa pretende que 50% das peças sejam feitas no Brasil.
Para a BYD, o fortalecimento da cadeia produtiva mais envolta e integrada na região, contribui para a consolidação de um ecossistema industrial mais robusto. Isso explica o plano de expansão da empresa com a indústria baiana.
“A presença da BYD em um polo industrial dinâmico favorece a interação contínua não apenas entre companhias, mas também com a força de trabalho local, formada por profissionais com experiência no setor. Esse ambiente colaborativo estimula a troca de conhecimento, ganhos de eficiência operacional e o desenvolvimento conjunto da cadeia produtiva automotiva, ampliando o impacto econômico e industrial da operação na região”, explicou Alexandre Baldy, Vice-Presidente Sênior e Head Comercial e de Marketing da BYD no Brasil.
Logística mais forte
Além do fortalecimento da rede de fornecedores, o expansionismo da empresa também cresceu a estrutura logística, tanto no modal rodoviário quanto no portuário. O objetivo é fortalecer o escoamento de veículos e o recebimento de insumos para a produção de veículos.
A empresa anunciou que mira a ampliação dessa cadeia através da formação de novas parcerias e da contratação de empresas especializadas, especialmente nas áreas de transporte e distribuição.
“Esse processo contribui para o aumento da capacidade operacional e para a otimização de rotas, conectando a unidade de Camaçari a importantes corredores logísticos e portos estratégicos da região”, continuou Baldy.
Não foram informados, entretanto, dados referentes à ampliação da rede logística desde o início das atividades da fábrica na Bahia.
Para a FIEB, a chegada de empresas do ramo automotivo estimula a potencialização de ativo logístico e incentiva a modernização da infraestrutura baiana. Um desses exemplos é o Terminal Portuário Miguel de Oliveira (Antigo Porto da Ford).
De acordo com dados da federação, o terminal privativo em Candeias, no Canal de Cotegipe, é um diferencial competitivo único. Com um pátio de 119 mil m² e calado de até 14 metros, ele já movimentou mais de 1 milhão de veículos no passado.
Além disso, a Fieb também projeta planos de concessão e operação pela Bahia Investe para a iniciativa privada que está em fase de finalização. De acordo com a federação, isso permitirá ao porto movimentar não apenas veículos, mas também carga geral e componentes para os setores eólico e solar.
O coordenador do Observatório da Indústria da FIEB, Thobias Silva, ressalta também a posição estratégica da fábrica da BYD que deve ser grande porta de entrada de investimentos para o estado.
“A proximidade de apenas 35 km do Complexo de Camaçari e o acesso rodoviário facilitado permitem uma logística de ‘valor agregado’, transformando a Bahia em um hub resiliente capaz de conectar o Nordeste ao mercado global com alta eficiência”, aponta o economista.
Os 5 setores com maior potencial de contratação
Na análise da FIEB, a expansão da economia na Bahia deve seguir em ritmo mais lento, mas ainda sim, com o crescimento abrupto e próspero da chinesa, que atua como uma ‘empresa-âncora’ para a reativação e modernização de toda a cadeia produtiva regional.
A federação aponta ao menos cinco principais segmentos que devem ser fortalecidos com esse expansionismo e que devem ser os principais setores de contratação no estado ao longo dos anos.
Confira:
- Autopeças de alto valor agregado: Atração de fornecedores de componentes eletrônicos, baterias e sistemas para veículos elétricos.
- Metalmecânico: Reativação de fundições e estamparias que estavam ociosas desde a saída da Ford.
- Infraestrutura Elétrica e Renováveis: Expansão de redes de carregamento (eletropostos) e integração com a cadeia de energia solar, setor onde a Bahia já é líder.
- Logística Especializada: Transporte de alta precisão para componentes tecnológicos e escoamento de veículos acabados.
- Serviços e Comércio: O aumento da massa salarial local gera um efeito multiplicador, impulsionando o consumo em Camaçari e em toda a Região Metropolitana de Salvador.”
Segundo Comitê Automotivo de Camaçari, realizado pelo Observatório da Indústria da FIEB , entre 2024 e 2026, a cidade baiana alcançou um saldo positivo acumulado de 2.615 postos de trabalho em fevereiro de 2026, uma alta de 54,8% em comparação a outubro de 2025, início das atividades da BYD na Bahia.
As contratações da empresa chinesa na Bahia tem alcançado prioritariamente mão de obra local, com destaque para Camaçari, Salvador, Mata de São João e Dias d’Ávila.
O crescimento do estoque de emprego em Camaçari, de acordo com a FIEB, reflete a consolidação de novos investimentos estruturantes e a reativação da cadeia produtiva automotiva regional. A expectativa é de que esses resultados sejam acompanhados em um curto prazo de novas demandas para a indústria baiana.
“A curto prazo, espera-se a manutenção do ritmo de contratações à medida que as unidades fabris atingem sua capacidade operacional plena. O desafio futuro residirá na qualificação da mão de obra local para atender às demandas de novas tecnologias veiculares, o que pode atrair fornecedores de autopeças de maior valor agregado, consolidando Camaçari como um hub automotivo resiliente e tecnologicamente avançado no Nordeste”, aponta relatório do comitê.
Como se preparar
A expectativa é de que os números sigam firmes para o setor automobilístico na Bahia e que os voos da BYD em Camaçari sejam ainda mais altos, acompanhando a atração de novos fornecedores, o fortalecimento de parcerias estratégicas e a criação de vagas cada vez mais qualificadas.
De acordo com o economista da Fieb, o foco deve ser a qualificação da mão de obra local para absorver essas vagas de alta complexidade tecnológica.
Além da pujança econômica, a Bahia concentra instituições educacionais e técnicas com foco em tecnologia, automação industrial, logística, entre outras áreas de atuação. Em julho de 2024, a empresa chinesa firmou um contrato com o Senai Bahia para entrelaçar a oferta de oportunidades de mão de obra especializada.
A instituição que oferece qualificações técnicas até pós-graduações, gratuitas e pagas, também coopera com o intercâmbio de informações e a realização de Programas de Educação Profissional, de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) e serviços tecnológicos, além da transmissão de conhecimentos científicos e tecnológicos.
À época da parceria, o Senai Bahia também firmou cooperação com a chinesa para realizar aperfeiçoamento em Operação Automotiva na instituição. Além disso, os profissionais também passam por constantes treinamentos em unidades da BYD na China com a tecnologia adotada pela empresa e fomentar a utilização desses aprendizados em Camaçari.
Em concomitância, o governo do Estado da Bahia e prefeitura de Salvador também promoveram ao longo de três anos, processos seletivos para cursos de capacitação para ampliar a oferta de qualificação profissional com vistas à atuação na empresa automobilística.
As vagas são ofertadas em sites especializados de anúncio de oportunidades de emprego, como o Sine Bahia e o Serviço de Intermediação para o Trabalho (SIMM). Além disso, é possível acompanhar em outras plataformas digitais como o Indeed, CIAT e Gupy.
A TARDE

