Queridinhas do momento, as canetas emagrecedoras têm se tornado muito populares no Brasil e no mundo, utilizadas por famosos e anônimos. É fato que auxiliam no processo da perda de peso, muito mais difícil sem elas. Mas seus efeitos no longo prazo ainda são analisados por cientistas e médicos.
De acordo com um estudo de pesquisadores da Universidade de Oxford publicado pelo BMJ, pessoas que interrompem o uso de injeções para emagrecer acabam recuperam todo o peso perdido em menos de dois anos, mais rápido do que aquelas que optam por outras formas de perda de peso, com uma média de 1 ano e 7 meses para ganhar de volta o peso. O peso foi recuperado a uma taxa de 0,4 kg por mês.
A pesquisa incluiu uma revisão de 37 estudos existentes sobre medicamentos para perda de peso, envolvendo 9.341 participantes, considerando a duração média do tratamento para perda de peso de 39 semanas, e o período médio de acompanhamento de 32 semanas.
Os medicamentos, conhecidos como agonistas do GLP-1, foram originalmente desenvolvidos como tratamento para diabetes e funcionam ajudando as pessoas a se sentirem saciadas. Em entrevista ao The Guardian, um dos autores do estudo, o médico Sam West, afirmou que o rápido ganho de peso observado após a interrupção do uso das canetas não se deve à medicação em si.
“Isso não é uma falha dos medicamentos – reflete a natureza da obesidade como uma condição crônica e reincidente. Serve como um alerta para o uso a curto prazo sem uma abordagem mais abrangente para o controle de peso a longo prazo e destaca a importância da prevenção primária”, diz.
O médico afirma que esses medicamentos “estão transformando o tratamento da obesidade e podem alcançar uma perda de peso significativa”, mas que sua pesquisa mostra que as pessoas tendem a recuperar o peso rapidamente após interromperem o tratamento, “mais rápido do que observamos com programas comportamentais”.
Risco de recaída
O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) recomenda essas injeções (por meio de canetas) para pessoas com excesso de peso associado a riscos de saúde relacionados à obesidade, e não para quem deseja apenas emagrecer um pouco.
Os médicos em geral prescrevem mudanças de estilo de vida, incluindo alimentação saudável e prática de exercícios físicos para ajudar as pessoas a manter o peso perdido.
Muitos especialistas afirmam que o tratamento deve ser considerado para toda a vida, diante do risco de recaída.
No Brasil, quatro doses de Mounjaro de 2,5 mg, a dose mais baixa, estão à venda nas farmácias por cerca de R$ 1.400. Ou seja, continuar o tratamento por um longo período também não é barato. Então, o que acontece quando você tenta parar?
As pessoas que tentaram interromper o uso das injeções relatam a experiência como “um interruptor que liga e você fica instantaneamente faminto”.
Segundo Adam Collins, especialista em nutrição da Universidade de Surrey (Reino Unido), a forma como essas injeções atuam no cérebro e no corpo pode explicar por que a recuperação de peso se intensifica após a interrupção do tratamento.
“Isso não é um problema enquanto [a pessoa] está usando os medicamentos, mas, assim que esse ‘reforço’ de GLP-1 é retirado, o apetite deixa de ser controlado e a probabilidade de comer em excesso aumenta muito.”
Parar abruptamente, diz Collins, é um grande desafio.
Segundo as estimativas mais recentes, cerca de 1,6 milhão de adultos no Reino Unido usaram essas injeções no último ano, em sua maioria adquiridas por meio de prescrições privadas, e não pelo sistema público de saúde (o NHS).
Outras 3,3 milhões de pessoas afirmam ter interesse em usar as chamadas “injeções para emagrecer” no próximo ano, o que significa que 1 em cada 10 adultos no país já usou ou gostaria de usar esses medicamentos, segundo a entidade beneficente Cancer Research UK, com base em pesquisas nacionais representativas realizadas no primeiro trimestre de 2025.
Natureza crônica da obesidade
O professor Naveed Sattar, da Universidade de Glasgow (Reino Unido), afirmou que as injeções podem trazer benefícios adicionais à saúde por promoverem rápida redução de peso.
“É plausível que, ficar mais magro por dois ou três anos, mesmo com uso de curto prazo das injeções, ajude a retardar danos às articulações, ao coração ou aos rins. Ensaios maiores e de mais longa duração serão necessários para responder a essa questão”, disse Sattar.
➡️ Mas acrescentou: “Mais importante: o uso contínuo desses medicamentos por três a quatro anos permite que as pessoas mantenham um peso significativamente mais baixo do que manteriam de outra forma, um benefício que geralmente não se observa com a perda de peso obtida apenas por mudanças de estilo de vida, em que muitos recuperam o peso ao longo do tempo.”
No Reino Unido, clínicos gerais e especialistas em manejo do peso do sistema público de saúde não estão autorizados a prescrever automaticamente Mounjaro e Wegovy, ainda que o paciente já tenha recebido esses medicamentos por meio de prescrição privada.
Os medicamentos podem ser oferecidos a pessoas com maior necessidade clínica que atendam a critérios específicos, como a presença de problemas de saúde relacionados ao peso.
Atualmente, não há limite de tempo definido para prescrições de Mounjaro no NHS, enquanto o Wegovy só pode ser prescrito por um período máximo de dois anos.
No Brasil, Wegovy e Mounjaro são aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e podem ser prescritos por médicos no tratamento da obesidade. Em dezembro de 2025, a Anvisa ampliou a indicação do Wegovy, à base de semaglutida 2,4 mg, para incluir também o tratamento de gordura no fígado associada a inflamação.
A tirzepatida (Mounjaro) passou a ser comercializada nas farmácias brasileiras no início de maio de 2025, embora sua liberação pela Anvisa tenha ocorrido ainda em outubro de 2023.
Por enquanto, esses medicamentos não estão disponíveis na rede pública. Há discussões preliminares sobre uma eventual incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas, até lá, o tratamento exige desembolso próprio, com custo mensal superior a R$ 1,2 mil.
Uma porta-voz da farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, disse que o uso de medicamentos para perda de peso precisa ser acompanhado de alimentação saudável, atividade física e acompanhamento médico.
G1

