terça-feira, 30 jun 2026

Pró-Sinfônica de Camaçari é um instrumento que transforma vidas

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A música exerce forte influência sobre as emoções humanas. A variação na cadência de uma melodia pode elevar ou diminuir a intensidade de sentimentos como a alegria, por exemplo. A depender dos componentes de sua fórmula e a forma como são organizados – os timbres, a junção das notas e a duração dos espaços entre elas – uma canção pode servir de estimulante ou provocar uma profunda sensação de paz. Em Camaçari, porém, a música tem provocado muito mais do que momentâneas mudanças de humor. Aqui, as transformações transcenderam a um nível social, criando novas perspectivas de vida, nutrindo esperanças de um futuro melhor, apresentando rumos com destinos mais audaciosos, conduzindo sonhos adormecidos à vívida realidade.
Camaçari não foi mais a mesma depois do lançamento da Orquestra Pró-Sinfônica de Camaçari, no dia 17 de dezembro de 2014. A partir daquele momento, a cidade começou a compor uma trilha sonora autoral para a sua história, executada por sua própria gente, com notas inspiradas pelas lutas e conquistas do povo que abriga. O município, famoso por sediar o maior complexo industrial integrado do Hemisfério Sul, deu mais um importante passo para se tornar, também, um dos principais polos sinfônicos da Bahia (em setembro no ano anterior, havia inaugurado o Conservatório de Música Sinfônica, que funciona na Cidade do Saber, oportunizando gratuitamente o aprofundamento nos estudos da música orquestral). Este mês, quando a cidade comemora 258 anos de emancipação, a Orquestra Pró-Sinfônica se destaca entre os motivos que os camaçarienses têm para comemorar.

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O cenário musical mudou e, com ele, a vida de dezenas de adolescentes e jovens de Camaçari. Um deles é o jovem músico Clesio Santos, de 17 anos, morador de Vila de Abrantes. Ele ainda lembra da primeira vez que viu uma orquestra pela televisão. “Naquele momento, eu comecei a sonhar com o dia em que eu iria participar de um grupo sinfônico”, recorda, acrescentando que, apesar do desejo, sabia que seria muito difícil alcançar esse objetivo, pois sua família não tinha recursos para arcar com os custos dos estudos de música clássica instrumental. “Esse sonho ficou guardado, meio que esquecido, até que soube que na minha escola iam começar a oferecer oficinas de instrumentos eruditos. De lá, fui para o Conservatório e, pouco tempo depois, me tornei um integrante oficial da Orquestra Pró-Sinfônica de Camaçari”, diz, com alegria.

Clesio não titubeia ao afirmar que a música mudou os rumos de sua vida. “Talvez fosse apenas uma fase, mas a verdade é que, antes da música, não pensava muito no futuro. Eu não sabia o que queria ser, no que queria me tornar. Hoje, já alimento outro sonho – quero estudar música, me aprimorar, seguir adiante neste caminho”, conta. A mãe de Clesio, a serviços gerais Neide da Silva Santos, acredita e incentiva os sonhos do garoto. Ela é a única na casa com um emprego fixo e tem se esforçado bastante para conseguir presentear o música da família com um merecido presente: um contrabaixo acústico. Para ela, é uma forma de recompensar pelas alegrias que ele a faz sentir. “Quantos pais precisam usar todas as suas economias para livrar seus filhos de um vício ou até mesmo para tirá-los da cadeia, muitas vezes recorrendo a empréstimos ou se desfazendo de seus bens?”, reflete, demonstrando gratidão por seus esforços serem por um motivo bem diferente. “Eu gostaria de fazer muito mais, mas infelizmente esse é um instrumento caro e eu ainda não juntei a quantia necessária para comprar. Mas esse é o desejo do meu coração e vou continuar me esforçando para fazer esse gesto de incentivo para o meu filho”, conta.

Nesta rota musical que se desdobra no município, enquanto alguns sonhos se realizam e outros surgem, alguém com uma visão mais ampla e conhecimento aprofundado do assunto observa e avalia o fenômeno que Camaçari testemunha. O maestro Ubiratan Marques participou de todas as etapas da formação da Pró-Sinfônica, acompanhou o desenvolvimento gradual de todos os componentes, acreditou junto com cada um deles que uma orquestra genuinamente camaçariense era uma possibilidade real. “É a realização de um sonho. E isso não é uma definição apenas minha. Todos com quem converso dizem a mesma coisa. O que vemos e ouvimos hoje era algo inimaginável há poucos anos. Em relação a sofisticação sinfônica, posso dizer que não havia nada em Camaçari. Hoje, temos uma orquestra que já pode até mudar de nome, porque nem cabe mais o prefixo ‘pró’. Eles já são uma orquestra sinfônica. A qualidade que um dia esperávamos alcançar já está diante de nós”, observa.

Pianista, compositor, arranjador, produtor musical e regente, Ubiratan Marques, ou simplesmente Bira, como é popularmente conhecido, já encarou diversos desafios ao longo da sua carreira musical. Porém, para ele, a Orquestra Pró-Sinfônica de Camaçari lhe provoca uma satisfação especial. “A evolução desses jovens é notável, não só musicalmente, mas também no comportamento. A postura é outra, os objetivos são outros, o nível de habilidade com os instrumentos também é outro. É uma grande satisfação trabalhar com eles porque eu vejo essa mudança e porque tudo o que eu espero deles eles me dão”, descreve o maestro.

De fato, não é preciso muito esforço pra perceber que os adolescentes e jovens que compõem a Orquestra Pró-Sinfônica de Camaçari estão cada vez mais à vontade sobre o palco, cada vez mais acostumados com os olhares e ouvidos atentos da plateia, cada vez mais precisos e sensíveis no soar das notas. A cada nova apresentação, dão uma nova mostra da evolução ininterrupta de seus talentos. Seja executando peças eruditas, como Lago dos Cisnes, do russo Tchaikovsky, ou canções populares, como Asa Branca, do nordestino Luiz Gonzaga, nossos instrumentistas demonstram a segurança característica dos músicos com muitos anos de estrada.

Mas a verdade é que a Orquestra Pró-Sinfônica tem feito muito mais do que oferecer aos cidadãos camaçarienses periódicas oportunidades de usufruir de um bom espetáculo musical. Ela endossa o orgulho do lugar onde atua, comprova e exemplifica a possibilidade de melhorar, de evoluir e de sonhar. Toda vez que se une para um novo concerto, ela desperta nos ouvintes o que há de melhor neles. Ressuscita lembranças, provoca reflexões, estimula sentimentos. O segredo não está nos instrumentos de corda, de sopro ou de percussão, mas nos Clesios que se juntam para argumentar em favor do futuro, para tocar a alma da plateia com a sua arte e, principalmente, para mostrar que cada morador de Camaçari tem motivos para celebrar mais um ano de existência do município – um terreno fértil para tantas esperanças.

Por: Wesley Sobrinho

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