quinta-feira, 11 jun 2026

Silvero Pereira fala sobre mudanças na carreira após A Força do Querer

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Quando o ator cearense Silvero Pereira, 34 anos, apresentou a peça BR – Trans pela primeira vez em Salvador, durante o Filte (Festival Latino Americano da Bahia), em setembro de 2015, ele ainda era pouco conhecido pelo público soteropolitano, embora já fosse reconhecido no meio teatral, especialmente em seu estado.

 

 

Agora, somente dois anos após aquela visita à cidade, Silvero volta à capital baiana com outro status, graças, principalmente à sua participação na novela A Força do Querer, em que interpretava Nonato, um motorista que à noite se travestia e se apresentava como a cantora Elis Miranda.

“Com certeza, a participação na TV trouxe mais respeito ao meu trabalho. É impressionante como as pessoas ainda percebem a televisão como um espaço de chancela”, diz o ator, que apresenta a peça BR – Trans na Caixa Cultural, de quinta a domingo.

Início

Silvero diz que antes de A Força do Querer (exibida de abril a outubro de 2017) lhe dar projeção nacional, as sessões de BR – Trans tinham, no máximo, 200 pessoas em Fortaleza. Após sua atuação na novela, chegou a se apresentar para um público superior a 900 pessoas na capital cearense.

O ator nasceu em Mombaça, uma cidade do Ceará com cerca de 50 mil habitantes e a aproximadamente 300 quilômetros de Fortaleza. Na capital do estado, estudou teatro e envolveu-se em grupos de artistas LGBT. Fundou o coletivo As Travestidas, formado exclusivamente por atores e atrizes homossexuais e travestis.

Hoje, no entanto, ao contrário do que se pode imaginar, sua plateia não se restringe ao público LGBT: um um show pop do qual Silvero participa, junto com outros artistas reuniu uma mais de 1,5 mil pessoas num espaço heteronormativo. Seu público, portanto, está longe de se restringir a um nicho.

Mas, se atualmete Silvero diz ter encontrado esse respeito à sua arte, ele afirma que no início da carreira era bem diferente: “Fortaleza é uma cidade conservadora, patriarcal e machista. Mesmo no meio artístico, sofri preconceito. As pessoas achavam que, se era para falar sobre isso (questões de gênero), deveria ser nas boates, como se o transformismo fosse uma arte menor. Eu ensinava teatro, mas muita gente não me reconhecia como professor”.

Preconceito

E Silvero assegura que o preconceito não era velado. “Era algo realmente explícito, as pessoas não disfarçavam e falavam diretamente a mim. Além disso, tinha muito pouco público. Fazíamos sessões para cinco ou seis pessoas, mas hoje a casa está sempre lotada”, diz o ator.

Nascido em 1983, Silvero viveu em Mombaça até os 13 anos e se mudou de lá para Fortaleza para dar sequência aos estudos. Na época, embora ainda não fosse envolvido bna luta por direitos LGBT, o preconceito contra aquela comunidade já lhe chamava atenção: “Com aquela idade, eu ainda não compreendia questões de gênero, mas eu achava estranho fazerem chacota ou impedirem que algumas pessoas tivessem contatos com os gays e travestis”.

Em 2008, graduou em teatro pelo Instituo Federal de Educação do Ceará e naquele mesmo ano fundou As Travestidas. O coletivo também dá nome a um festival de teatro que acontece anualmente e a um bloco de Carnaval que saiu pela primeira vez no ano passado e voltará às ruas em 2018.

Silvero diz que a televisão nunca foi uma meta em sua carreira, mas reconhece a importância da experiência em A Força do Querer: “Foi uma experiência maravilhosa. Eu compreendi uma outra maneira de interpretar. A novela foi como um workshop”.

O convite para interpretar Nonato surgiu após Glória Perez assistir a uma apresentação de BR-Trans, no Rio de Janeiro, em 2016. Apesar de já estar com o elenco da novela fechado, a autora ficou tão impressionado com o artista, que decidiu criar um papel especialmente para ele. “Dois ou três dias depois de assistir à peça, ela me ligou e disse que ia criar um personagem para mim”, lembra-se Silvero.

A participação na novela deu mais visibilidade ao ator e, claro, a seu engajamento na luta pelos direitos LGBT. Mas Silvero não vê esse engajamento como um “dever” de artistas homossexuais: “As pessoas não são obrigadas a nada. Elas devem seguir o fluxo daquilo em que acreditam. Mas a arte me comoveu socialmente e, felizmente, meu trabalho me permite esse questionamento”.

À noite, o motorista Nonato se travestia e era a cantora Elis Miranda

Silvero, no entanto, diz que os artistas têm uma grande responsabilidade, especialmente num país em que “os opressores estão no poder”. “Num país que se finge democrático e libertário, torna-se urgente que as pessoas se aliem. E pessoas dos mais diveros grupos precisam se unir: gays, periféricos, nordestinos, pobres… Elas precisam se unir e, juntas, dizerem ‘quem manda somos nós’. Só assim vamos acreditar nisso”.

Como artista, Silvero defende a diversidade e deseja “ampliar desafios”, interpretando personagens fora do universo LGBT. “O mercado tem a mania de ‘encaixotar’ o artista, especialmente a TV e o cinema, que se apegam a um estereótipo. Quero dizer para o mercado apenas que sou ator e tenho outras facetas. Mas admiro, por exemplo, Charles Chaplin, que fez o mesmo personagem a vida inteira. E se eu for fazer LGBT sempre, não me importo”.

 

Fonte: Correio

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