Na hora de embaralhar as cartas, a sorte afastou o revés do que seria um cenário de perda. A brincadeira poderia ser só uma partida de um dos jogos de tabuleiro mais tradicionais do mercado de brinquedos, mas, na verdade, reflete o desempenho do setor na pandemia, que usou a estratégia certa para ganhar mais.
O segmento pode não ter conquistado a maior fortuna possível, mas, não levou seus jogadores à falência. Mesmo com as lojas físicas fechadas em março e reabertas há pouco mais de uma semana, a cadeia produtiva dos brinquedos surpreendeu nos últimos meses.
Em indústrias como a Estrela, por exemplo, o crescimento das vendas pelo e-commerce passou dos 400%, cenário que se repete com relação aos dados da Bahia. Entre os itens fabricados pela marca, adivinha qual ocupa o primeiro lugar? Ele mesmo, o Super Banco Imobiliário, seguido pelo Jogo da Vida, Eu Sou?, Jogo da Mesada.
“Tivemos que correr para aumentar a produção, sobretudo, da linha de jogos. Vendemos quase duas vezes o que foi comercializado no mesmo período do ano passado”, afirma o diretor de marketing da Estrela, Aires Fernandes.
Os jogos de tabuleiro foram os que puxaram esse bom desempenho, como acrescenta o diretor. Na lista entra também Detetive, Cara a Cara, Combate e Cai não Cai. “São jogos tradicionais, grifes que atravessam gerações. Por já terem o conhecimento dos adultos, eles estavam guardados na memória afetiva”, reforça.
A brincadeira ficou séria mesmo quando a assistente social Sandra Matos fez as contas: em quatro meses gastou cerca de R$ 1 mil só com a compra de quebra-cabeças. Não era aniversário, Natal e as três filhas de Sandra são adultas, porém, o jogo em família passou a fazer parte da rotina, devido ao isolamento social.
“Comprei na faixa de uns 10 quebra-cabeças de várias peças e eles não são nada baratos. Eles ajudam a tirar o foco da pandemia”, conta.
A regra do jogo
A indústria baiana de brinquedos também reconhece o destaque para a venda de jogos e quebra-cabeças. Segundo o diretor de marketing da fábrica da Novabrink/ Rosita, instalada em Lauro de Freitas, Germano Brandino, os produtos com youtubers, também tiveram uma boa resposta. A fábrica, no entanto, não aderiu a uma plataforma online.
“O fechamento das lojas físicas derrubaram em torno 35% nossas vendas em relação ao mesmo período do ano passado. Porém, os jogos, quebra-cabeças e produtos relativos a youtubers, aumentaram a procura na crise”.
Localizada no município de Camamu, a Latoy Brinquedos também não operou vendas via e-commerce. Após registrar queda de 75% e 50% em abril e maio, respectivamente, a empresa espera crescer 15% nos meses de junho e julho com sua produção de brinquedos e mordedores de latex para bebês e pets.
“Empresas que já tinha vendas online através de e-commerce ou marketplace se saíram um pouco melhor. O que manteve as nossas vendas foram supermercados, farmácias e petshops que não fecharam”, pontua o CEO da Latoy, Marcelo Brandão.
A psicóloga Fernanda Gordilho teve covid-19. Ela é mãe de Gustavo, de 12 anos, Rafael Gordilho, de 9 anos e Gabriela, que tem 6 anos. Os quadros magnéticos de cores e formas, bingo dos bichinhos e jogos de tabuleiro como dama, ludo, gamão ajudaram a quebrar a monotonia. “Estávamos completamente isolados. Os jogos que compramos ajudaram a quebrar a rotina”, diz Fernanda.
Quem investiu no online avançou casas a mais no jogo. O site inaugurado no mês de junho pela Tato Brinquedos Educativos alcançou uma expansão de 250% nas vendas, comparado com o mesmo período dos dois últimos anos. A fábrica funciona em Salinas da Margarida e aumentou a produção em mais que o dobro.
“O confinamento e excesso de eletrônicos justificam a expansão. Isso aliado à necessidade de ficar em casa gera esta demanda por entretenimento educativo”, pontua o sócio da Tato, Everton Marco.
É brincadeira?
A Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq) ainda não tem dados consolidados sobre o crescimento do segmento durante a pandemia. O levantamento mais recente mostra que o ano de 2019 o setor fechou com um faturamento de R$ 7,290 bilhões, 6% acima do resultado de 2018.
Em um momento onde a economia brasileira sofre desaceleração e a renda do consumidor caiu com o agravamento da crise, o diretor de Indicadores e Estatística da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI) e presidente em Exercício do Conselho Regional de Economia (Corecon-BA), Gustavo Casseb Pessoti, enxerga a capacidade de expansão do setor com surpresa.
“A própria Abrinq, estimava uma perda, e, pelo contrário, o crescimento está acontecendo. Os fatores estão relacionados ao e-commerce. Na pandemia, o processo virtual passou a ser decisivo para esta atividade”, avalia.
Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abecomm), brinquedos e jogos, logo no início do isolamento, tiveram um crescimento de 434% na procura no período de 15 a 28 de março, comparada a quinzena anterior. A média de gasto por compra (ticket médio) ficou em R$ 179,26.
Outra prova deste desempenho positivo está em consumidores como a artesã Gisele Santos, que passou a comprar bem mais pela internet. Mãe de Maria Luiza de 6 anos e Valetim, de 1 ano, ela adquiriu desde o boneco do Homem de Ferro à boneca da Baby Alive. “Comprei bem mais brinquedos para deixar efeito da quarentena mais leve, na medida do possível”, diz.
E nesta brincadeira, vai ser necessário pesquisar bastante para encontrar um valor em conta. Isto porque, o comportamento dos preços se justifica no custo dos insumos para a produção nacional, que ainda são importados e sofrem o efeito da alta do dólar, como acrescenta Gustavo Casseb Pessoti. “Muitos brinquedos têm componentes importados. Além disso, as empresas não diminuem suas margens porque as lojas físicas estão fechadas, mantendo os preços dos brinquedos elevados”.
A fisioterapeuta Janina Andrade percebeu o impacto no bolso. O filho Zeca tem 6 anos e ela buscou brinquedos com uma proposta mais educativa. “Os preços subiram e também senti atraso nas entregas”.
Melhor jogada
Sem nem precisar de uma rodada extra, varejistas como na ToyMania, tiveram crescimento da loja virtual durante a pandemia de 357%. Na Bahia, o comportamento de vendas alcançou 227%. Para o gerente de e-commerce da empresa, Eduardo Carvalho, o brinquedo virou item de primeira necessidade. “Este crescimento revela a mudança de comportamento do consumidor durante a pandemia, a categoria de brinquedos tornou-se prioritária e essencial”.
Já na Ri Rappy/PB Kids, a venda de jogos e quebra-cabeças no site cresceram três vezes mais que o normal, como explica a diretora de marketing do Grupo Ri Happy, Emília Velloso. “Com mais de 280 lojas fechadas para atendimento presencial, introduzimos o modelo ‘ship from store’ com lojas funcionando como centros de distribuição em apoio ao e-commerce”, diz ela.
Em empresas como a Bmart, que não contavam com uma plataforma digital para vendas, a adequação foi feita em apenas dois dias. “Não queríamos perder as vendas. Anunciarmos o Instagram e o WhatsApp empresarial”, afirma Mirian Siqueira Trabasso, diretora regional da Bmart.
A Le biscuit foi outra varejista que investiu pesado no e-commerce, lançado em maio. Foram R$ 25 milhões para viabilizar a plataforma, como destaca o gerente executivo de Planejamento e Abastecimento da Le biscuit, Igor Albuquerque. “A categoria de brinquedos vem crescendo desde o lançamento do site e já se alinha à participação das lojas físicas”.
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Lojas menores também estão vendendo mais, como no caso da Brincô Delivery de Brinquedos, em Salvador. A proprietária da loja, Márcia Guerra, estima que o aumento das vendas alcançou 70% no período do isolamento social. “Hoje estamos atendendo, principalmente, avós, tios, dindos que querem que o presente chegue em forma de afeto e amor, já que no momento não permite que eles estejam pessoalmente”.
A engenheira Rita Bittencourt, é mãe de Lina e Lara, de 9 e 7 anos e colocou uma regra em casa: não vale pedir brinquedo caro. “Não compro só por causa da propaganda”. Ela chegou a comprar brinquedos novos para tentar distrair as meninas, porém o que fez sucesso foi transformar uma caixa de papelão em um bebê conforto para a boneca. “Até a nossa gata aprovou e acabou adotando para ela como a nova casinha. Minha filha ficou super feliz”, completa.
OS 10 MAIS VENDIDOS
1. Hot Wheels Lava Rápido – Mattel: R$ 229
2. Massinha de Modelar Ladybug Padaria – Fun Divirta-se: R$ R$ 39,90
3. Barbie Kit de Pintura – Fun Divirta-se: R$ 89,90
4. Boneca Baby Alive Misturinha Sabor Tropical – Hasbro: R$ 249,98
5. Quebra-Cabeça 3D Módulo Lunar Apollo – Brinquedos Chocolate: R$ 99,90
6. Mini Boneca Surpresa – LOL – Lil Sisters Série 4 – Candide: R$ 64,90
7. Fisher-Price Pirâmide de Argolas – Mattel: R$ 159,99
8. Jogo Banco Imobiliário – Estrela: R$ 129,90
9. Patrulha Canina Mesa com Cadeira – Fun Divirta-se: R$ 229
10. Barbie Viajeira – Mattel: R$ 149,90.
Fonte: Correio

