quinta-feira, 30 abr 2026

Casos de ameaça e perseguição viram pesadelo de motoristas do Uber em Salvador

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É quase um guia rápido e prático de como montar uma emboscada contra um motorista do Uber. O áudio está rolando nos grupos de WhatsApp de motoristas dos dois lados. O taxista, revoltado, ensina como atrair um concorrente até determinado local. E aí? Aí, como disse o próprio: “pau!”. “Todos os taxistas de Salvador deviam fazer o cadastramento no Uber como cliente. Pediu táxi, pau! Da ‘última forma’. Daí sempre da ‘última forma’. Chegava um dia que ele ia cair fora”, sugere a gravação, atribuída a um taxista.

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Se a tática é usada com frequência, ainda não se sabe, mas pipocaram relatos de ameaças e perseguições feitos por motoristas do serviço, após uma turista carioca descrever momentos de terror, no Rio Vermelho, quando o Uber em que ela estava foi cercado por taxistas. “Batia nos vidros e gritava que dali nós não passaríamos. Contei uns 15 taxistas”, relatou ela no Facebook.

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A mulher foi parar na delegacia e o veículo Uber no pátio da Transalvador. Nesta terça (26), o motorista disse que ainda não havia recuperado o carro. “E quando recuperar, só volto a rodar quando a polêmica se resolver”, garantiu o uber. Depois disso, o CORREIO ouviu outros relatos de condutores que foram perseguidos, ameaçados e xingados por taxistas, que, ao que tudo indica, iniciaram uma cruzada contra o serviço.

Trauma

Os motoristas pedem para não ser identificados e afirmam que o clima é de medo. Muitos pararam de circular até que uma decisão judicial os favoreça. Um deles foi ameaçado no sábado, na primeira vez que ligou o app. Quatro jovens que saíam de uma festa fizeram um chamado no Rio Vermelho. Iam para um hotel na Pituba. “Eles eram de fora, tinham um sotaque do Sul”, contou o uber.

Passava de meia-noite e ele parou na Rua Conselheiro Pedro Luís, próximo à boate Zen. Quando os passageiros entravam no veículo, conta, taxistas se aproximaram. “Eles vinham ‘abafar’ e eu pedi que o pessoal adiantasse o passo. Foi o tempo de eu arrastar o carro. Mas eles ainda xingaram e bateram na porta e no vidro”. Daí em diante, o motorista não ficou mais à disposição. “Desliguei. Não uso enquanto não for criada uma regulamentação. Os taxistas estão tratando a gente como delinquentes”, disse.

Danificado

Também no sábado, outro motorista diz que foi ameaçado e teve o carro danificado no Largo dos Aflitos. “Sofri uma agressão verbal e um taxista babaca deu um murro no lado do carro e amassou um pouco, mas já reparei o dano”. O curioso é que os próprios taxistas gravaram vídeos das ações e compartilharam nas redes sociais.

Em um deles, um Gol branco é cercado e impedido de seguir em frente, também no Rio Vermelho. “Olha o Ubi (sic). Olha o Ubi ativo aqui em Salvador. Ói a placa do Ubi, ói! Chama a polícia, chama a polícia”, avisa um taxista, numa gravação. Nesse momento, uma passageira desce do carro e reivindica o direito de usar o serviço. “Eu tenho o direito de ir e vir”, grita. “Mas é proibido. Você tá errada. Você e ele”, dizem os taxistas.

Veículo foi apreendido nas imediações do Dique do Tororó pela Semob (Foto: Jefferson Peixoto/Agecom)

Tática

Há relatos de ubers que confirmam a tática de emboscada através do cadastramento falso. “Os taxistas usam o aplicativo para fazer uma chamada falsa para fazer o motorista se deslocar até um determinado local. Já recebi várias chamadas assim”, conta um uber. “Estava na Vasco da Gama e recebi um chamado do Largo da Mariquita. Aí, quando cheguei lá e liguei para o cliente, não atendia. Quando percebi que tinham taxistas reunidos, fiz o retorno e fui embora. Cancelei a viagem”, contou outro.

“O pessoal tá com medo. Tanto motoristas quanto usuários. Muitos preferem sair só quando surgir uma liminar. As autoridades estão esperando acontecer alguma coisa grave”, diz o uber Oscar Guedes, 40.

Por conta da perseguição, além do medo da fiscalização, ubers começaram a desenvolver estratégias para driblar os problemas. Uma delas é orientar passageiros a fazer chamados em locais afastados de pontos de táxi. Outra é pedir para sentar no banco da frente.

Emergência

Em nota, o Uber informou que orienta seus motoristas “para que não se envolvam em brigas e discussões”. “Para assessorá-los, criamos um número de telefone 0800, de emergência, que aciona a polícia”. A empresa informou ainda que os motoristas possuem uma apólice de seguro com cobertura a partir de R$ 50 mil por passageiro.

Presidente da Associação Metropolitana de Taxistas, Valdeilson Miguel disse que a entidade não orienta que taxistas atuem com violência, mas entende que o Uber é uma “concorrência desleal”. “O taxista é pai de família, tem suas contas para pagar e não aceita de forma nenhuma a deslealdade que esse aplicativo impõe”, declarou.

Quadrilha

Para o delegado Adailton Adan, titular da 1ª Delegacia (Barris), a cruzada dos taxistas ao Uber pode ser considerada formação de quadrilha. “Se há mais de três pessoas utilizando para a prática de violência, isso é crime e tem que ser apurado pela polícia”, disse. O advogado criminalista Domingos Arjones concorda com o delegado e também destaca que “a situação pode evoluir de ameaça para crimes como lesão corporal, tentativa de homicídio”.

Titular da 7ª Delegacia (Rio Vermelho), a delegada Jussara Santos tem opinião contrária. Ela entende que se trata de “um fato relativo para pressionar a prefeitura”. “Não é um crime organizado, com a finalidade de praticar crime grave. Seria mais uma mobilização, como forma de pressão social”, defendeu.

A assessoria da Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que qualquer atitude criminosa cometida contra motorista do Uber será investigada. A Polícia Civil disse não ter um balanço sobre os ataques.

Motorista foi espancado em emboscada
A tensão entre taxistas que não aceitam a concorrência do Uber e os motoristas que prestam este tipo de serviço já motivou ameaças e agressões em outras cidades onde o serviço já está disponível. Em Porto Alegre, por exemplo, um motorista do Uber foi agredido por taxistas dentro do estacionamento de um supermercado, em novembro.

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Bráulio Pelegrini Escobar, 40 anos, levou socos e pontapés por cerca de dez minutos até ser socorrido por testemunhas e chegou a ser hospitalizado. Dois taxistas foram presos em flagrante pelo ataque. Há casos de violência também nas outras oito cidades (além de Salvador e Porto Alegre) onde o serviço já opera no Brasil.

No último final de semana, três veículos do Uber foram apedrejados em diferentes pontos de Belo Horizonte. Segundo a PM, as agressões partiram de taxistas. Em todas as ocorrências, os veículos tiveram vidros danificados por pedras.

Fonte: Correio. Colaborou Bruno Wendell

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