terça-feira, 26 maio 2026

De Camaçari: catador de recicláveis conquista pós-graduação na Ufba aos 63 anos: ‘Orgulho’

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O catador de materiais recicláveis Jeronimo Bispo dos Santos, de 63 anos, sempre gostou de estudar. Desde a infância, em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, achava bonito observar as crianças indo para a escola. A vida, porém, não foi branda com ele: começou a trabalhar aos 9 anos de idade para ajudar a mãe a criar os irmãos mais novos e parou de frequentar a escola quando tinha 18, bem na época em que se mudou para Camaçari para tentar uma vida melhor.

Mas o esforço não foi em vão. Retomou os estudos em 1986 na cidade industrial, onde se formou técnico em Instrumentação Industrial. De lá pra cá não largou a caneta: completou outro curso de segundo grau em administração de empresas ainda nos anos 90 e duas décadas depois, em 2012 se graduou em Administração pela Unifacs. A trajetória acadêmica não parou por aí. Na última terça-feira (7), Jeronimo recebeu o certificado de conclusão do curso de pós-graduação em Gestão de Resíduos Sólidos Socialmente Integrada da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

A formação é crucial para a função que exerce hoje em dia como administrador e catador na Cooperativa de Materiais Recicláveis de Camaçari (Coopmarc). Ele começou a trabalhar na associação em 1999, a convite de um amigo. Na época, conciliava o ofício como instrumentista no polo petroquímico com a catação nas ruas. “Eu saía do polo, vinha para a cooperativa, pegava o carro-plataforma com a grade e a gente ia catar papelão”, conta. A ocupação, no entanto, não agradava os olhares alheios, inclusive os familiares.

“O pessoal me encontrava na rua e dizia assim: ‘você é um técnico catando papelão?’. E eu respondia: ‘não, eu não estou catando porque eu quero, é porque preciso’. Estou dentro da cooperativa e quero ajudar”, relembra. Mas Jeronimo não se importava com os julgamentos. A vontade era de aprender mais para colaborar com a Coopmarc. Tanto é que fez cursos livres de cooperativismo, aproveitou treinamentos através de projetos governamentais e iniciou a graduação em 2008, mesmo ano em que assumiu a presidência do empreendimento, aos 51 anos.

Rotina de estudos

O primeiro diploma não veio sem esforço. Ele conta que passou domingos e feriados estudando e precisou abdicar até da cervejinha com os amigos para se dedicar aos livros. “Quando não estava na cooperativa, estava em casa estudando, pesquisando, fazendo trabalho junto com o grupo que formamos, de quatro colegas. As pessoas falavam: ‘ficou rico e tal’. Eu dizia: ‘não, gente, estou estudando, está uma correria muito grande’”, conta.

Aos 51 anos, Jeronimo era o “vovô da sala” e como a facilidade de aprendizado não é a mesma para quem está nessa idade, em comparação com os mais novos, ele considera que se afastar das distrações foi crucial para facilitar sua formação. “A gente já sabe que a cabeça não é tão boa, e alguma coisa a gente já esquece, precisa se esforçar mais. Por isso, eu tive que parar mesmo, ficar dentro de casa, para poder estudar”, relembra.

Quase uma década depois de concluir o curso, a rotina de trabalho e estudo precisou ser retomada em 2023, após Jeronimo ser aprovado para a especialização à distância na Ufba. Ele foi selecionado como bolsista pela coordenação do curso após uma análise de seu currículo acadêmico.

Com a pós, a ideia foi a mesma: colaborar com o crescimento da cooperativa onde trabalha. Só que com um gostinho a mais. Jeronimo diz que o sonho dele sempre foi estudar na mais conceituada universidade do estado. Apesar das dificuldades para equilibrar novamente trabalho e faculdade, conta ter “tirado de letra” os temas tratados ao longo do curso e o resultado foi uma média geral de nove e meio nas disciplinas da especialização. Ele descreve com alegria o sentimento de realização.

“É muito orgulho porque é muito trabalho. Eu voltei para a presidência da cooperativa e o curso caiu como uma luva. Agora, posso falar tecnicamente, como um especialista, e ajudar a tratar melhor os resíduos. O curso é rico em informações, traz da história social do lixo ao saneamento básico, as gravimetrias, cidades inteligentes, é fantástico”, diz. A dedicação do pai parece ter inspirado também os filhos de Jeronimo: um deles, Danilo, é doutorado em Engenharia e mora em Corvilhão, em Portugal. A outra, Iolanda, se graduou em Recursos Humanos e trabalha em uma grande empresa em Salvador.

Correio da Bahia

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