domingo, 31 maio 2026

Vício em apostas é similar à dependência química, dizem psicólogos

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O acesso a apostas esportivas e jogos de azar têm rebuscado as suas metodologias de aproximação com os jogadores, apenas num toque de dedos, fácil assim. Desde a popularização das famosas bets, o Brasil tem avançado na publicação de portarias do governo federal para a regulamentação de uso, publicidade e funcionamento da prática no país.

Com avanços da aplicação de regras em plataformas de apostas de cotas fixas, a fim de separar ‘o joio do trigo’, e driblar os impactos negativos econômicos para o país, o alerta sobre os efeitos devastadores envolvendo esse transtorno mental também tem sido ainda mais fervoroso.

É unânime entre os especialistas em saúde mental que tem demonstrado ainda mais preocupação com o que consideram uma epidemia frenética de apostas esportivas: o vício nas bets é similar ao vício em substâncias químicas. Aquilo que aparentemente começa com uma tentativa, muitas vezes redireciona o apostador a um cenário de perdas financeiras, depressão, ansiedade, problemas com relacionamentos e até ao suicídio.

O que é apontado como frescura, está longe de ser realmente. A ludopatia, caracterizada pelo desejo incontrolável de continuar jogando, é uma doença classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e no Brasil tem CID: 10-Z72.6 (mania de jogo e apostas) e 10-F63.0 (jogo patológico).

“O vício em apostas esportivas entra no manual de diagnóstico de psiquiatria como um transtorno mental, assim como qualquer outro vício, seja por álcool, ou por café, por exemplo. O vício é um conjunto de fatores genéticos, ambientais e emocionais que acabam proporcionando uma dependência diante de um prazer que um determinado comportamento proporciona. As apostas online, por exemplo, proporcionam prazer, principalmente quando a pessoa está ganhando e vê um retorno através do risco”, explica a psicóloga sistêmica Ticiana Prata.

Impacto na saúde mental

Um levantamento feito pelo Instituto Locomotiva aponta que 86% das pessoas que apostam têm dívidas e que 64% estão negativadas na Serasa. Do universo de pessoas endividadas e inadimplentes no Brasil, 31% jogam nas bets.

A pesquisa traçou um perfil de 2.060 apostadores de bets, com 18 anos ou mais, de 142 cidades de todo o país. Do total, 51% acreditam que o jogo aumente a ansiedade; 27% acham que cause mudanças repentinas de humor; 26% dizem que pode gerar estresse e 23% acham que causa sentimento de culpa. Quanto aos entrevistados que fazem apostas online, seis de cada dez admitem que a prática afeta o estado emocional e causa sentimentos negativos como ansiedade (41%); estresse (17%) e culpa (9%).

O psicólogo Natan Reis, especialista no tratamento de dependência química, vícios em jogos e disfunções sexuais, explica que o vício em jogos de azar passa pelo chamado “sistema de recompensa” – centro das emoções do cérebro responsável por processar a sensação de prazer ou satisfação através da expectativa de receber algo em troca de uma ação.

“Toda vez que a gente passar por essa experiência, o cérebro vai liberando a dopamina, que é o neurotransmissor associado ao prazer. Quanto mais é liberada, mais o cérebro entende que aquilo precisa se repetir. Isso vai gerar cada vez mais a necessidade de repetição deste comportamento. Quando a gente pensa em jogos nós vamos ter esse aspecto da incerteza com o resultado, mas também dessa esperança pela vitória de conquistar nas apostas”, diz o especialista.

O neuropsicólogo conta que os sintomas do vício em apostas esportivas também são similares aos sintomas de uma dependência química. Em uma ordem não cronológica, o especialista diz que o apostador passa a sentir maior irritabilidade, por não conseguir controlar as ações em apostas, e isso, por conseguinte, afeta outras questões pessoais e de saúde.

“Em alguns momentos a pessoa começa a aprender a paciência com facilidade, passa a comprometer o relacionamento no dia a dia com uma pessoa, seja familiar ou alguma parceria amorosa. Entre os aspectos físicos estão a perda de tempo, fazendo investimentos nas apostas, investindo além do que poderia. Isso impacta no tempo de sono e de necessidades básicas iniciais. Isso desencadeia um adoecimento físico e mental”, continua Natan Reis.

A TARDE

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